Ministra da Justiça sacode-a-água-do-capote
Foi ontem inaugurado em Matosinhos o 13º Gabinete de Apoio à Vítima. A cerimónia contou com a presença da ministra da Justiça (MJ) e do procurador-geral da República (PGR).
Os jornalistas presentes
questionaram-nos sobre a problemática da violência doméstica, designadamente
sobre a recente notícia do relatório que apresentava a possibilidade de
extinguir a secção especializada SEIVD (Secção Especializada Integrada de
Violência Doméstica) do Porto, devido à sua inoperacionalidade.
O PGR justificou
a crise pela grave falta de Oficiais de Justiça, enquanto que a ministra disse
que essa falta não tinha nada a ver com o Ministério da Justiça, chutando a
responsabilidade para a gestão da Comarca.
O
procurador-geral da República revelou que não está previsto extinguir as
secções especializadas em violência doméstica, mas admitiu que a situação está
em estudo, na sequência do relatório do Conselho Superior do Ministério Público
que alertou, desde logo, para os atrasos no registo de entrada dos processos e as
acusações por cumprir há dois anos.
Esta lentidão é
justificada por Amadeu Guerra com a falta de Oficiais de Justiça e disse assim:
«O que ficou nesse relatório é que havia
atrasos no que diz respeito ao registo de entradas dos processos e no que diz
respeito ao cumprimento de decisões dos Tribunais, nomeadamente, havia
acusações por cumprir há cerca de dois anos e, portanto, não havendo Oficiais
de Justiça para fazer andar os processos; os magistrados do Ministério Público
não tendo Oficiais de Justiça para lhes pôr os processos para despachar;
obviamente que tem havido situações até que os próprios magistrados vão buscar
os processos às prateleiras, despacham-nos, mas depois não há Oficiais de
Justiça para os cumprir.»
E na sequência
de tais declarações, logo ali ao lado, a ministra da Justiça, Rita Júdice, garantiu
que o Governo não tem culpa da falta de Oficiais de Justiça nas SVEID, mas que,
mesmo assim, está a trabalhar numa solução para resolver o problema.
Disse assim:
«Os Oficiais de
Justiça nas SEIVD (Secção Especializada Integrada de Violência Doméstica) não
são colocados pelo Ministério da Justiça e, por isso, é muito importante, e é
uma análise que estamos a fazer e espero poder estar em condições de se criar
quadros específicos para as SEIVD. Só assim conseguiremos assegurar que os
Oficiais de Justiça são colocados nas SEIVD, caso contrário, só dependerá da
organização do próprio Tribunal, que o Ministério da Justiça não pode
naturalmente controlar, a colocação ou não dos Oficiais de Justiça nestas
SEIVD. Por isso, estamos muito focados, primeiro, em aumentar o número de
Oficiais de Justiça; segundo, em criar, sendo possível, quadros específicos
para as SEIVD, para os Oficiais de Justiça.»
Quer isto dizer que, segundo a ministra da Justiça, e que também está em linha com o que diz a presidente do SFJ, é possível resolver a falta de Oficiais de Justiça com a colocação, por Movimento, em determinadas secções, tal como antes sucedia.
Recorde-se, ou
saiba-se, que antes de 2014 os Oficiais de Justiça podiam concorrer a secções
concretas e não como atualmente apenas a núcleos, sendo depois distribuídos a
nível local, existindo atualmente quadros de Oficiais de Justiça para núcleos e
não propriamente para secções, como chegou a haver.
Ora, o que a
ministra da Justiça vem agora dizer é que a nível local haverá uma espécie de
boicote à colocação de Oficiais de Justiça nas secções SEIVD e que, para
superar tal espécie de boicote, pondera colocar diretamente Oficiais de Justiça,
num quadro próprio, nessas secções.
Daqui se pode inferir,
de acordo com as declarações da ministra, que não há falta de Oficiais de
Justiça, mas apenas uma má gestão a nível local, o que se resolve com
Movimentos a colocar Oficiais de Justiça onde estejam realmente a fazer falta.
Já tinham visto
tamanho despudor alucinogénio? Claro que os jornalistas, como meros
reprodutores de declarações, isto é, papagaios, sem nenhuma interpretação nem
contextualização, comem tudo com a maior das facilidades.
Os recursos
humanos necessários são aqueles que, em determinado e em concreto momento fazem
falta, podendo ser mais, podendo ser menos, de acordo com as entradas, as
pendências e a presença efetiva de Oficiais de Justiça, isto é, excluindo as ausências,
as licenças e as baixas. Para que esta gestão se realize de forma sempre
adequada, não há que promover uma portaria que fixe números concretos para
determinado local, mas promover a entrada de Oficiais de Justiça.
Por exemplo: no
Movimento Ordinário em curso, quantos lugares de Oficiais de Justiça estão
apontados para a Comarca do Porto? Quantos lugares de Técnicos de Justiça foram
indicados para o Movimento em curso? A resposta é simples: Zero! Nenhum!
Aliás, para o
atual Movimento, metade das comarcas do país não estão contempladas com nenhum lugar
de Técnico de Justiça, o que vem reforçar o descaramento de se dizer que é tudo
uma questão de deficiente gestão que só se corrige à força da criação de um
quadro próprio.
Ouça a seguir as
declarações, sintetizadas, no noticiário de ontem da rádio Antena 1 da RTP.
Poder-se-á dizer que foi uma desculpa do momento para descalçar a bota, para desenfiar o barrete que o PGR lhe acabara de enfiar, para sacudir a água do capote, enfim, para enganar os chatos dos jornalistas, mas será que os ofendidos podem deixar passar em claro tal vitupério?
As declarações da
ministra mostram-se injuriosas para quem gere os recursos humanos da Comarca do
Porto, o que mereceria uma demissão imediata e em bloco de todos os elementos
do conselho de gestão dessa Comarca, como protesto, em face da insinuação de serem
os responsáveis pela não colocação de Oficiais de Justiça nas SEIVD, apenas
porque os Movimentos os ali não colocam, aliás, como não colocam em lado nenhum
e a falta de Oficiais de Justiça se verifica em todo o lado porque,
simplesmente, o Governo não proporciona, desde há anos, os recurso humanos
necessários.
Mas a ministra
da Justiça ainda disse mais, o que demonstra que não tem grande noção daquilo
que lhe está afeto para gerir.
Disse assim:
«O mais
importante no combate à violência doméstica é mesmo dar as condições para que
as vítimas tenham a segurança e a confiança de denunciar, de não desistir do
processo», afirmou Rita Alarcão Júdice, ministra da Justiça.
Sucede que a
desistência do processo, ou da queixa, por parte da vítima é algo que já não é
possível, e já não é possível desde, nada mais, nada menos, do que há um quarto
de século. O crime deixou de ter natureza semipública para passar a ser crime
público, através da Lei n.º 7/2000, de 27 de maio, Lei esta que vai completar, dentro
de dias, 26 anos.
Assim, sendo
crime público, o Ministério Público não precisa da autorização ou sequer da queixa
da própria vítima para investigar e acusar o agressor. Uma vez tendo notícia do
crime, o processo segue, mesmo contra a eventual vontade da vítima.
O 13º Gabinete
de Apoio à Vítima, em Matosinhos, trata-se de uma parceria entre o Ministério
da Justiça, a Procuradoria-Geral da República e a Cruz Vermelha. Neste Gabinete,
assegurar-se-á um acompanhamento próximo, com atendimento confidencial, apoio
jurídico e encaminhamento para respostas sociais.
Para este ano
está prevista a abertura de mais dois gabinetes: em Santarém e nos Açores.
Fontes: "SIC-Notícias", "TVI" e "RTP-Antena1".
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