“Remeter para as comarcas uma falha estrutural não é explicação. É demissão”
Finalmente saltou a presidente do Sindicato dos Funcionários Judiciais (SFJ) das páginas do Correio da Manhã para as páginas de outro periódico, do Público, onde a informação diária e o jornalismo praticado é bem mais conceituado. Com este salto, os Oficiais de Justiça ganham um outro grau de importância, um outro estatuto social, já que o estatuto próprio ainda não se consegue ver finalizado tão cedo.
No Público de ontem (16MAI) Regina Soares aborda a carência de Oficiais de Justiça, desde logo, nas SEIVD (Secções Especializadas Integradas de Violência Doméstica), a propósito dos recentes comentários da ministra da Justiça, que aqui também demos notícia no passado dia 12MAI, com o título: “Ministrada Justiça sacode-a-água-do-capote”.
No artigo do
Público de ontem, intitulado “Sem oficiais de justiça, a urgência é uma ficção”,
a presidente do SFJ, Regina Soares assume, mais uma vez, o papel de dirigente
sindical, papel que bem desempenha na comunicação social, embora os Oficiais de
Justiça já não partilhem a mesma opinião quanto ao seu desempenho nos gabinetes
ministeriais. Às vezes parecem duas pessoas diferentes.
E diz assim no
Público:
«A ministra da
Justiça prometeu reforçar o número de oficiais de justiça nos tribunais, em
particular nas Secções Especializadas Integradas de Violência Doméstica. Ainda
bem que o problema é reconhecido. Mas é preciso dizê-lo sem eufemismos:
contratar mais, sem estatuto, sem carreira, sem quadros próprios e sem
condições dignas, não resolve o que está partido.
Conheço por
dentro estas secções. Em 2018, no DIAP de Lisboa, existia um Gabinete de Apoio
à Vítima na 7.ª Secção, com psicólogas que faziam o possível com o pouco que
tinham. Em 2020, esse gabinete foi absorvido pela estrutura criada para a
violência doméstica. Oito anos depois, a fotografia é quase a mesma: estruturas
criadas, recursos humanos por criar.
Portugal tem
hoje cerca de 1900 lugares vagos de oficiais de justiça. O Sindicato dos
Funcionários Judiciais (SFJ) pediu informação às comarcas e confirmou que não
há uma única sem problemas de pessoal. A falta não está apenas na violência
doméstica. Está no cível, no crime, nas execuções, no comércio, na família e
menores. Há processos que chegam já prescritos. Há digitalização imposta por
lei ao lado de provimentos que mandam imprimir em papel. Contradições que a
justiça paga todos os dias.
Na violência
doméstica, a contradição é mais grave. A lei diz que estes processos são
urgentes. A realidade responde com equipas exaustas, secções a meio gás e
vítimas ouvidas em espaços onde todos escutam. Os oficiais de justiça continuam
porque sabem que uma vítima não pode esperar. Mas o sofrimento de quem trabalha
nestas secções tornou-se invisível.
A ministra disse
que a colocação de oficiais de justiça nestas secções não é responsabilidade do
Ministério da Justiça. Então é de quem? Do Ministério das Obras Públicas? O
Ministério da Justiça tutela a Direção-Geral da Administração da Justiça
(DGAJ), que gere colocações. A responsabilidade tem endereço. Remeter para as
comarcas uma falha estrutural não é explicação. É demissão.
Também nos falam
de estatísticas. Mas há estatísticas que são uma velha ilusão: dois cidadãos
comeram um frango, logo cada um comeu meio. Um processo de violência doméstica
pode aparecer como findo na plataforma informática e ficar, na prateleira, com
notificações por cumprir. Antes de tudo estar feito, a vítima volta a ser
agredida e o processo reabre. A violência doméstica não encerra por despacho
informático. É dinâmica, recorrente, urgente. Urgente por lei. Ficção por falta
de oficiais de justiça.
O problema não é
apenas de número. É de condições. O Estatuto dos Funcionários de Justiça data
de 1999. A revisão de ingressos e promoções está concluída, mas continua por
publicar, dependente das Finanças. As escalas remuneratórias continuam por
corrigir. O modelo de avaliação está por definir. Prometer contratação sem
tornar a profissão atrativa é encher um balde com o fundo aberto.
Se as secções de
violência doméstica ainda não colapsaram, não é porque o sistema funcione. É
porque há oficiais de justiça a segurar aquilo que o Estado adia. Sem quadro
específico. Sem formação adequada. Sem reconhecimento proporcional à
responsabilidade exigida.
O que não tem
faltado são leis, protocolos, gabinetes inaugurados e fotografias. O que tem
faltado é o essencial: pessoas, carreira, especialização, dignidade.
A violência
doméstica merece tribunais que funcionem. E tribunais que funcionem precisam de
oficiais de justiça. Não de promessas. Não de inaugurações. Não de estatísticas
confortáveis. De oficiais de justiça com condições para garantir que a urgência
da lei não morre à porta da secretaria.»
Fonte: “Público”.
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Claro que faltam funcionários.
ResponderEliminarMas aprende estava o Sindicato nos governos anteriores que estiverem a dormir.