A enorme adesão por insatisfação

       Independentemente da motivação dos Oficiais de Justiça para aderirem à greve geral de ontem, motivação que é diversificada, o que é facto é que houve uma grande adesão.

      Os Oficiais de Justiça estiveram dispostos a perder um dia de vencimento, vendo o seu salário diminuído no final do mês, para poder demonstrar o seu descontentamento, porque é também facto que há um descontentamento e também – e muito bem – para poderem desfrutar de um merecido dia de folga extra para poderem fazer o que bem entenderam fazer, com a sua própria vida, daí retirando o maior prazer possível, desde logo para compensar o prejuízo da perda de vencimento.

      Não vale a pena alegar motivações subjacentes num ou noutro sentido, porque várias existem e todas são legítimas, pelo que nos devemos centrar nos factos e estes demonstram a insatisfação dos Oficiais de Justiça, não só em relação ao objeto da greve geral, mas também, e principalmente, porque impulsionados pela insatisfação do estado da sua carreira e, bem assim, insatisfação pela condução do processo negocial.

      Os Oficiais de Justiça com maior antiguidade recordam-se muito bem quando, antes, não aderiam nunca às greves da função pública, apenas fazendo as convocadas pelos seus próprios sindicatos, mas hoje assiste-se precisamente ao contrário: os Oficiais de Justiça apenas aderem às greves das outras entidades, porque dos seus sindicatos já não há nenhuma, nem sequer uma que seja igual, por adesão, às das outras entidades sindicais, apenas para vincar a sua posição. O máximo a que chegam os sindicatos dos Oficiais de Justiça são declarações informativas de meras intenções.

      Chega a ser espantosa a forma como alguns elementos da estrutura sindical dos Oficiais de Justiça se vangloriam da adesão à greve por parte dos Oficiais de Justiça, como se a luta fosse própria, e se focam, e muito bem, numa adesão que, antes de mais, demonstra o desagrado com a sua própria carreira, desde logo pelas negociações, apesar de não ser esse o objeto da greve geral convocada por outras estruturas sindicais.

      Recordemos que, apesar da convocatória geral da CGTP-IN, muitos outros sindicatos lançaram avisos prévios de greve que, embora desnecessários, porque os trabalhadores que representam já estavam abrangidos, ainda assim não deixaram de vincar a sua posição, marcando uma indiscutível adesão, coisa que nenhum dos dois sindicatos dos Oficiais de Justiça fez, como se estivessem proibidos pelo Governo de decretar greves, sabe-se lá por que combinações ou acordos técnicos em reuniões com tecnicidades não reveladas.

      Por isso, quando vimos ontem nas notícias a presidente do SFJ vangloriar-se da grande adesão dos Oficiais de Justiça à greve dos outros, para além do contentamento que os expressivos valores transmitem, ao mesmo tempo somos assaltados por uma angústia, por um  aperto, ao ver como o aproveitamento, que não deveria ser colagem, mas impulso, não só neste caso, como noutros, se repete, assim morno, esfriado, sem sabor.

      A comunicação social divulgou um número de adesão de cerca de 80% dos Oficiais de Justiça, número indicado pelo SFJ que considerou a adesão como “histórica”.

      Disse assim a presidente do SFJ:

      «É um valor histórico, porque, cada vez mais, temos uma classe que está a sentir-se muito insatisfeita. Às onze e meia da manhã tínhamos cerca de 80% de greve com dezenas de tribunais paralisados e centenas de secções que estavam a mais de 90%, portanto, isto tem um impacto nacional, não posso precisar, não temos esses números, mas mais de um milhar de diligências, julgamentos e de diligências do Ministério Público, que terão sido adiadas, isto mostra uma classe unida, consciente e que está muito insatisfeita com a falta de valorização ao longo dos anos.

      Há tribunais mais pequenos e médios que fecharam mesmo a 100% e depois temos grandes tribunais que basta estar apenas uma pessoa para isso não acontecer e temos os serviços mínimos que aqui contam muito, porque nas matérias que são necessários os serviços mínimos, mesmo essas pessoas estariam de greve, caso não fosse obrigatório, portanto, estando a trabalhar, são tribunais que estão abertos, senão ainda mais estariam fechados.»

      Regina Soares diz muito bem quando afirma: «Cada vez mais temos uma classe que está a sentir-se muito insatisfeita», mas para além desta afirmação, que é uma incontestável constatação, deveria a presidente do mais antigo sindicato representativo dos Oficiais de Justiça e com mais associados, interrogar-se previamente sobre em que circunstâncias nasce essa insatisfação e em que medida participa, ou não, da mesma.


      Pode ver nos dois vídeos que seguem extratos das notícias de ontem.



Comentários

Mensagens populares deste blogue

Ministério da Justiça já tem novos mapas de pessoal da 1ª instância

A carreira dos Oficiais de Justiça é a terceira mais envelhecida da Administração Pública

Mais um acordo assinado e foi “uma grande vitória” e foi “o que se conseguiu”, diz o SFJ