A fantasia bíblica da paciência de Jó e o ensinamento aos Oficiais de Justiça
A propósito do artigo publicado esta quarta-feira no Correio da Manhã, subscrito pela presidente do Sindicato dos Funcionários Judiciais (SFJ) e intitulado “Paciência de Jó”, vamos hoje saber mais sobre este tema.
O referido artigo aborda, em síntese, a paciência dos Oficiais de Justiça, comparando-a com a personagem bíblica de nome “Jó”.
Regina Soares diz que a situação atual dos Oficiais de Justiça deve fazer “o Governo ponderar o que quer que aconteça após as férias judiciais”, isto é, dá ao Governo uma espécie de novo prazo de mais um bom par de meses – estamos em junho, o pós férias começa em setembro, logo, temos cerca de 3 meses de prazo concedido –, para que solucione as muitas questões que afetam os Oficiais de Justiça, porque, diz ela, “o pouco que ainda funciona pode deixar de funcionar”.
Regina Soares apresenta uma possibilidade para daqui a 3 meses, isto é, a hipótese que haja alguma paragem, não necessariamente por greves dos Oficiais de Justiça, mas pelo agravamento das carências, ou será que quer mesmo ameaçar com uma greve?
Vejamos, continua e conclui assim:
«A paciência tem limites e os nossos estão a esgotar-se. Quando se esgotarem de vez, a Justiça sentirá a diferença.»
Ora, que a paciência se vai esgotando é facto que se arrasta há anos, mas que não significa que se vá esgotar nos próximos meses. Poder-se-á desgastar mais, mas, certamente, não se irá esgotar. E não se irá esgotar porque os sindicatos sempre a ligarão um pouco mais à máquina, alegando fantásticas conquistas, como, por exemplo, a dos 12 anos para concorrer à promoção quando o Governo queria 15, como se isso fosse realmente uma conquista relevante, mas são estas engrandecidas pequenas coisas que acabam injetando energia à paciência que se vai deteriorando, mas sem que nunca se esgote.
Os Oficiais de Justiça já estiveram mais próximos do limite da paciência, mas nunca a deixaram esgotar, portanto, não vai ser agora, precisamente logo agora que os dois sindicatos mantêm esta postura colaborante e colaborativa com o Governo.
Por isso, quando Regina diz que há uma possibilidade de algo suceder quando acontecer o tal esgotamento, isso é uma abstrata consideração meramente filosófica, equivalente ao debate da hipótese da Humanidade desaparecer um dia se um buraco negro chupasse o planeta Terra. Ai se isso acontecer, ai se o buraco negro vier, verão então como chupará a Terra.
Portanto, não se trata de nenhuma ameaça, nenhum aviso, nem sequer de algo com que devamos perder mais tempo.
De todos modos, o título escolhido para o artigo é muito curioso e aporta uma comparação muito interessante com os Oficiais de Justiça.
No relato bíblico, a personagem “Jó” sofre como hoje sofre um Oficial de Justiça e sofre as maiores e diversas sevícias e provações, mas, de igual modo que os Oficiais de Justiça, Jó nada fez por si próprio para ultrapassar os maus-tratos, mantendo apenas uma fé irracional de que algo ou alguém superior a ele tinha o seu destino na mão e por ele decidiria.
A história da “paciência de Jó” é, pois, muito apropriada para ser contada aos Oficiais de Justiça, porque estas histórias da Bíblia tinham como propósito dar exemplo e conselho às pessoas comuns para que estas orientassem a sua vida de acordo com tais lendas e tal moralidade e, realmente, assim vem sucedendo com muitas pessoas ao longo de séculos e, claro, também com os Oficiais de Justiça.
A expressão “paciência de Jó” vem sendo utilizada desde tempos imemoriais para descrever a enorme capacidade do Homem suportar grandes sofrimentos, as maiores injustiças e todas as provações possíveis sem perder a calma, a tranquilidade nem a fé.
No Antigo Testamento esta figura bíblica de Jó corresponde à de um homem muito rico, respeitado e justo que, rapidamente, perde tudo. Perde a sua riqueza, perde a saúde e perde todos os seus filhos, tudo num curto espaço de tempo, e, apesar disso manteve sempre uma postura – como hoje tanto se gosta de classificar – resiliente.
Jó vem descrito na Bíblia como sendo íntegro, reto, que temia a Deus e sempre se desviava do mal. Tinha dez filhos e grandes rebanhos (de gado, não confundir com os filhos).
Ora, um dia, numa espécie de entretenimento para passar o tempo enquanto se discute algo à volta de umas bejecas, Deus elogia a integridade de Jó perante Satanás e este último, controverso como é seu hábito, alegava que Jó só era assim íntegro e fiel porque Deus o protegia e o abençoava com todos as riquezas. Satanás afirma que se Jó perdesse tudo, amaldiçoaria Deus.
Deus aceita o desafio e permite que Satanás tire os bens de Jó, mas proíbe-o de lhe tirar a vida. Então, num único dia, Jó recebe várias notícias catastróficas por mensageiros consecutivos: os seus bois e jumentos são roubados. As suas ovelhas são consumidas por um fogo celestial. Os seus camelos são levados por inimigos. Um forte vento desaba a casa onde todos os seus filhos estavam e assim morrem todos. Só perdas.
Com todos esses acontecimentos, devastado, Jó rasga as suas vestes, rapa a cabeça em sinal de luto e adora o seu deus, dizendo: “Nu saí do ventre de minha mãe e nu voltarei; o Senhor o deu, e o Senhor o tomou: bendito seja o nome do Senhor.” Ou seja, mesmo perante tanta adversidade, não perde a fé e lá vai a aposta de Satanás para o galheiro.
Mas Satanás, teimoso e sem querer perder a posta, insiste que o homem acabará por renunciar a Deus se a sua própria vida estiver em causa. Deus permite então um novo ataque, desde que poupe a vida de Jó.
Jó é infetado com úlceras malignas e dolorosas da cabeça aos pés. Até a sua própria esposa vacila e lhe diz: “Amaldiçoa Deus e morre!”. Mas Jó responde que devemos aceitar tanto o bem como o mal da parte de Deus. Ou seja, mesmo com a sua própria saúde e vida em jogo, mantém-se resiliente.
É fantástico, não é? Tudo lhe pode cair em cima e ele nada, calminho a aceitar tudo e a ter fé.
Mas a história não é só com Jó, pois também acaba por envolver uns amigos que debatem os acontecimentos e depois de muito ponderar concluem que o sofrimento de Jó se deve por culpa dele, porque deve ter algum pecado oculto e é por isso que Deus o está a punir.
Jó defende a sua inocência com firmeza, mas os amigos mantêm a sentença de que ele é vítima por sua própria culpa.
Chegados a este ponto, em que nem a esposa nem os amigos estão consigo e vendo Deus que a aposta estava ganha, decide quebrar o silêncio e fala com Jó a partir de um redemoinho.
Em vez de lhe explicar o motivo do sofrimento, Deus arma-se em sabichão e faz-lhe uma série de perguntas sobre a criação do Universo, assim demonstrando a Sua sabedoria infinita e, claro, a limitação do entendimento humano.
Jó reconhece a sua pequenez e submete-se à soberania divina. Isto é, aquele homem (como tantos outros no nosso presente) submetem-se por ignorância, aceitam o que outros sabichões lhe dizem e deixam-se ficar, mesmo que a penar.
A história acaba tendo um final feliz. Deus repreende os amigos de Jó pelas erróneas conclusões a que chegaram e, depois de ver Jó a orar pelos seus amigos, Deus acaba por curá-lo imediatamente e restitui-lhe em dobro tudo o que antes possuía e acaba por ter mais dez filhos (sete rapazes e três raparigas) e ainda lhe dá uma vida longa e próspera.
Ora, aqui está o final feliz de alguém que vem dado como exemplo pela presidente do Sindicato dos Funcionários Judiciais (SFJ), de como se pode atingir a felicidade a dobrar desde que haja muita resiliência e muita fé nos seres superiores. Todo um ensinamento! Não deixem que a vossa fé seja abalada por nada, nem pelas erróneas opiniões dos outros, dos falsos amigos e colegas, mantenham sempre a fé nos seres superiores. Aprendam Oficiais de Justiça! Obrigado Regina!
Fonte: artigo publicado no Correio da Manhã e reproduzido na página do SFJ.

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