Os Negacionistas das Greves
A greve é a manifestação mais gravosa que um trabalhador pode exercer no âmbito da sua reivindicação de melhores condições laborais.
Esta manifestação tem caráter individual, uma vez que cada trabalhador pode decidir aderir, ou não, à greve.
Este caráter individual está, no entanto, intrinsecamente ligado ao caráter coletivo da greve, não só porque a decisão de adesão está tantas vezes dependente da adesão dos demais, isto é, do coletivo, como também, e especialmente, os resultados dessa mesma decisão individual influenciam a decisão do coletivo mas também os resultados para esse mesmo coletivo.
Por isso, a decisão individual tem um peso muito significativo nessas duas vertentes principais: a influência na decisão dos demais e o conseguimento total, parcial ou nulo, das reivindicações, também para esse mesmo coletivo.
Assim, a decisão de cada um não constitui uma decisão meramente pessoal mas uma decisão com repercussões no coletivo, tanto a priori (na decisão dos demais) como a posteriori (nas consequências).
Ninguém pode querer decidir por si e decidir quanto a si, ignorando os demais; todos os demais, quando a decisão afeta esses mesmos todos os demais.
Ninguém pode ousar decidir por si contra a maioria.
Ninguém pode atrever-se a ser mais do que os seus colegas de profissão, decidindo contra eles, colocando-se num patamar diferenciado e autónomo em que o “eu” não quer saber do “nós”, tratando-os como o “eles”.
A tirania do “Eu” confronta com a solidariedade do “Nós”.
São os tiranos, os ditadores, os fascistas, os narcisistas, os umbiguistas… aqueles que decidem pensando em si e em clara oposição ao coletivo.
Sim, é verdade que o direito de opção é uma liberdade a considerar e a respeitar, pois claro que é, sem dúvida alguma, mas também é verdade que é possível classificá-la como uma falta de solidariedade para com o coletivo.
Para além de tudo isso é uma hipocrisia.
Vejamos um exemplo claro: aquando da greve geral que conseguiu o pagamento do suplemento remuneratório, a massa de trabalhadores Oficiais de Justiça que fez greve conseguiu esse suplemento, do nada, para todos e não apenas para a massa que fez greve nem só apenas para os sindicalizados, na altura no único sindicato que existia.
Aqueles que não aderiram à greve ou que se opunham à greve conseguiram o mesmo suplemento, nunca o rejeitaram, nunca comunicaram à DGAJ que prescindiam do seu recebimento. Conseguiram-no à custa dos demais, à custa daqueles que ignoraram aquando da sua opção pessoal. Por isso a hipocrisia da tirania.
Há muitas formas de luta e já quase todas elas foram encetadas e algumas ainda continuam pendentes, como, por exemplo, as ações em tribunal contra os últimos dois Movimentos, sem promoções. Os tribunais decidem tarde, como todos bem sabemos, mas, mesmo tarde, acabam sempre por decidir e, como todos também bem sabemos, costumam decidir, de forma maioritária, a favor dos Oficiais de Justiça. Aliás, ainda agora vimos como factos de há dez anos estão agora mesmo a ser regularizados com o automatismo da progressão nos escalões ou como, agora mesmo também, se vai resolver a questão da inconstitucionalidade das últimas promoções para as categorias de Secretário de Justiça.
Os Sindicatos estão a trabalhar e a trabalhar bem. Tanto o SFJ como o SOJ são sindicatos fantásticos que mantêm uma atividade intensa e sem paralelo com a maior parte das profissões. Claro que em toda a sua atividade é natural que sucedam erros, que haja tropeções, avanços e recuos, especialmente quando se tem pela frente um muro maior do que o caído em Berlim.
Todos sabem muito bem que nesta página somos os primeiros a apontar as anomalias na ação dos sindicatos, não para os denegrir, como alguns indicam, mas para os melhorar, como todos desejam.
De todos modos, reiteramos que, independentemente dos casos pontuais, na generalidade, o trabalho sindical dos dois Sindicatos que representam os Oficiais de Justiça, é muito bom, e mesmo muito melhor quanto o grau de dificuldade na sua ação é enorme, uma vez que o muro que têm que derrubar é imenso, é pesado e todos os dias cresce um pouco mais.
Até 1990, ninguém acreditava que o muro de Berlim caísse tão cedo e de forma tão estrondosa e, ao mesmo tempo, simples. Construído em 1961 e tão fortemente mantido durante todos esses quase 30 anos, acabou por cair, e caiu porque o Povo assim o desejava.
Demorou? Sim, demorou, mas caiu.
Da mesma forma, todos sabemos que outros muros hão de cair, antes ou depois, cairão, sem dúvida alguma, porque é essa a vontade dos Oficiais de Justiça e essa vontade tem que ser manifestada; mostrada de forma clara e inequívoca, e a greve é uma forma de demonstração dessa vontade inequívoca de todo um coletivo.
A forma massiva de demonstração passa pelo registo oficial de faltas nos tribunais e nos serviços do Ministério Público. Nos últimos anos esses registos a que a DGAJ acede e gere mostram um coletivo esfrangalhado, facilmente controlável por falta de coesão, pois os registos mostram como um número cada vez maior de Oficiais de Justiça não adere às greves.
Por exemplo: há pequenos núcleos no país onde trabalham três ou quatro Oficiais de Justiça ou mesmo um juízo de proximidade com dois Oficiais de Justiça que pensam, para si próprios, que lá no seu cantinho não têm visibilidade e que é indiferente a sua adesão à greve, deixando a greve para os núcleos mais populosos. Como se enganam… Pois todos contam, todos são contabilizados, mesmo esses dois Oficiais de Justiça do juízo de proximidade contam, somados a outros juízos de proximidade, somados àquelas unidades de um Oficial de Justiça dos serviços do Ministério Público, todos contam assim: 2+1+3+… E já não são apenas dois e já não é apenas um; no cômputo nacional são muitos, chegam aos milhares, e em percentagem dão a imagem de uma classe operária dividida, mas, pior ainda, é que essa mesma imagem de divisão é uma imagem falsa.
A imagem de divisão que é sistematicamente transmitida ao Governo é uma imagem falsa porque as reivindicações são comuns a todos os Oficiais de Justiça, apenas a forma de adesão é que é divergente. Portanto, a imagem de divisão corresponde a uma real divisão na ação mas não a uma real divisão de reivindicação. Claro que este aspeto diferenciador acaba por não ser levado em conta e, uma vez tudo metido no mesmo saco, o Governo sente-se perfeitamente à vontade para decidir o que quiser perante essa falta de coesão na ação dos Oficiais de Justiça.
Em suma, estamos perante uma situação muito gravosa para esta classe profissional, pois a mesma vê-se atacada em duas frentes: pelo Governo e por si mesma.
Minada desde dentro pelos negacionistas anti solidários para com os colegas, isto é, para com o coletivo, os Oficiais de Justiça sofrem tantas baixas nesta guerra desde dentro como desde fora pelas ações perpetradas pelo Governo.
Cada Oficial de Justiça negacionista anti solidário comporta-se tal e qual um radical islâmico bombista que se faz explodir, causando imensos danos naqueles que o rodeiam.
Faltam 3 dias para a greve do primeiro dia de arranque após as férias judiciais de verão, dia este que ainda é considerado como o arranque do novo ano judicial, portanto, dia relevante e que pode ter grande impacto, assim o queiram os Oficiais de Justiça aproveitar. Dia assim só haverá outro daqui a um ano.

" ... Os Sindicatos estão a trabalhar e a trabalhar bem."
ResponderEliminarTão bem que os associados para terem uma informação esclarecida e isenta têm de se socorrer de fontes externas como este Blog!
O paralelismo com a expressão em voga é, na minha opinião, infeliz e tendenciosa, porquanto aparenta, do que neste espaço se lê, os OJ já deram mostras que o caminho não é o da greve, mas sim, da ação judicial contra o Estado e seus agentes violadores legislativos.
A expressão aplicar-se-á muito bem à postura reincidente sindical.
"Negacionismo"!!!
EliminarDeixem-se é de greves ou paguem-nas. Dinheiro não vos falta!
Outubro está aí.
Processem o Estado e seus agentes no que à sua responsabilidade extracontratual diz respeito.
Publicitem nos media tais processos, com indicação dos nomes dos processados.
E garanto que, antes das eleições, a integração do subsídio de recuperação no ordenado vai acontecer.
Duvido é que exista verticalidade sindical para tal!
A "solidariedade do nós",
ResponderEliminarquando neste espaço existem relatos de vidas miseráveis de OJ que nem para se sustentarem com a tão aclamada "dignidade da função" têm?
Onde está o "nós"?
Estes OJ por si é que andam, após horário laboral, a distribuir comida, a transportar pessoas, a serem porteiros de estabelecimentos e prédios para completar ordenados.
O "nós " é, sindicalmente, de circunstância.
Medida emediata sindical para o apregoado "nós",
O SFJ e o SOJ reuniram de urgência, tendo resultado a deliberação conjunta de procederem à alteração dos respetivos estatutos, no sentido de aos grevistas sindicalizados serem pagos os dias de greve!
Esta medida sim. Transmite a ideia do "nós".
O "nós" que mensalmente vê o valor da quota sair do ordenado sem, em mais de 20 anos de "esquema" sindical só ver perdas e não proveitos (reforma, serviços sociais, férias, integração de subsídio, melhoria estatutária e por aí fora).
Isto sim, é o "nós".
Os OJ são pessoas sérias. Caso contrário, às provações que passam a par do poder judiciário que possuem muito dinheiro por fora poderiam ganhar.
EliminarMas também muito político o deixaria de ser, assim como muito senhor fulano de tal deixaria de ser tão estimado perante tantos podres documentados.
Pelos comentários, nos quais me revejo, se vê que a greve não pode ser tratada como se de um brinquedo se fale. A greve deveria ser tratada com cuidado, fazendo parte sólida de um plano global de luta, devidamente planeado e estruturado. Plano esse que tarda em tomar forma e a ser apresentado a todos os OJ.
ResponderEliminarAo se marcarem greves, em cima do joelho, sem qualquer planeamento, só estamos a enfraquecer está tão forte arma
Não somos carneiros, felizmente. Em 99,999999999 por cento dos artigos desde blog concordo, desta vez, porém, penso que o tempo estaria mais bem passado na praia.
"A Injustiça num lugar qualquer é uma ameaça à justiça em todo o lugar"
ResponderEliminarMartin Luther King Jr.
Enquanto Oficiais de Justiça, temos a obrigação de lutar contra todas ameaças à justiça, protagonizadas por esta política do Ministério da Justiça, assente num "socialismo de caviar"
Subsidios de rendas de casa para uns, bairros de lata para outros!...
Vencimentos, pasme-se, superiores ao do Primeiro Ministro para alguns, ordenado minimo para os outros!...
"Socialismo de caviar" :
ResponderEliminar"São os mordomos do universo todo
Senhores à força mandadores sem lei
Enchem as tulhas bebem vinho novo
Dançam a ronda no pinhal do rei
Eles comem tudo, eles comem tudo
Eles comem tudo e não deixam nada!"...
O meu primeiro congresso do SFJ foi no Fundão.
ResponderEliminarJá nem sei quantos anos passaram mas na altura como era maçarico em congressos procurei perceber as 'dinâmicas' da coisa e absorver o máximo de informação.
Recordo que depois de muito beija mão a determinada altura começaram a discursar dois ou três colegas com uma atitude critica para com o SFJ mas até algo construtiva.
Falavam da necessidade de mudança de paradigma dos sindicatos e na necessidade ou da possibilidade de criar um fundo para colmatar a perda de vencimento com as greves.
Após estes discursos pediram a palavra vários colegas, muito indignados com tal proposta.
Um deles até era o líder da regional à qual eu pertencia e fez um discurso muito inflamado e muito emotivo contra aquela ideia.
Foi ovacionado de pé pela grande maioria dos presentes.
Nunca mais vi aqueles colegas que ousaram sugerir a existência de um fundo para greves.
O tal colega que se indignou ainda continua no SFJ, é uma espécie de senador, deve faltar pouco tempo para se ir embora e nesta altura está-se a cag.. para as greves.
Na altura, a direção também se pronunciou e referiram não haver condições técnicas para aquilo, nomeadamente a DGAJ não autorizava aquele pagamento no processamento do ordenado e andar a pagar em envelopes também não dava, além de não ser possível ao SFJ controlar em todos os Tribunais a assiduidade de todos os colegas.
Referiram ainda problemas legais e constitucionais.
Ou seja, chutaram para canto mas verdade seja dita, a grande maioria dos congressistas manifestaram-se contra aquela ideia.
Recordei este episódio aqui porque muitas vezes quando os colegas tem um discurso crítico com os sindicatos esquecem-se que os sindicatos somos nós, somos nós que os elegemos a todos, sejam as direções sejam os delegados sindicais e que quando estes colegas nos vão representar temos que saber o que eles pensam, o que vão para lá dizer e mais importante, o que vão votar.
Não basta andar a falar mal dos sindicatos e depois não fazer nada para mudar.
Temos por aí muitos colegas com muita capacidade e muitas boas ideias.
Cheguem-se à frente, incentivem quem merece, desafiem esses colegas a serem sindicalistas e a representarem a classe.
Um Abraço.
"... esquecem-se que os sindicatos somos nós, somos nós que os elegemos a todos, sejam as direções sejam os delegados sindicais e que quando estes colegas nos vão representar temos que saber o que eles pensam, o que vão para lá dizer e mais importante, o que vão votar.
EliminarNão basta andar a falar mal dos sindicatos e depois não fazer nada para mudar..."
Pois. São os OJ que pagam, em duplo sentido. O das quotas e o da incompetência de 20 anos, fundamentada na ausência de resultados da ineficaz ação sindical na Justiça.
Então, pois...chegue-se à frente!
EliminarClaro que sim. Pelo menos pela madeira dentro, graças a tanta incompetência, já estou chegado há mais de 20 anos.
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