A fraca memória sobre a mudança da hora

      Diz-se dos portugueses que têm memória curta, mas o pior é quando não têm memória nenhuma.


      Todos os anos é a mesma discussão: a chatice de ter que mudar a hora nos relógios; se se vai dormir mais, ou menos; se amanhã por esta hora será hora de não sei o quê… Então amanhã a que horas almoço?


      E terminam sempre as reflexões afirmando que isto não tem jeito nenhum e que se devia parar de mudar a hora, tal como já um senhor na Europa propôs em tempos e ainda ninguém fez nada; uma pouca-vergonha e para aqui andamos nesta chatice. Então não era melhor deixar as coisas como estão? Que mania de andar sempre a mudar; para quê?


      Vamos lá recordar o que a memória já apagou.


      Entre 1992 e 1996, era então primeiro-ministro em Portugal Aníbal Cavaco Silva, a nossa hora foi igual à do resto da Europa. Ou seja, nesta altura não se atrasaram os relógios, como hoje se fez.


      Alegou-se que o objetivo era facilitar as comunicações, os negócios, e os transportes internacionais, mas houve demasiadas queixas no país, por se estar demasiadamente desfasado em relação ao Sol.


      Logo de manhã, às 9 horas da manhã, no Inverno, ainda o Sol despontava no horizonte e no Verão, a noite tardava muito mais a chegar. Começou a haver um maior stresse nas pessoas, crianças a adormecer na escola e, depois de um estudo encomendado pela Comissão Europeia, mostrou-se, na altura, que a poupança de energia que se ganhava ao final do dia se perdia com o aumento do gasto de manhã.


      Em 1996, já com António Guterres como primeiro-ministro, a hora voltou à normalidade do que era e do que hoje é, mais consentânea com os hábitos e horários dos portugueses e da nossa situação geográfica.


      A situação de desconforto dos portugueses foi de tal ordem, as queixas eram tantas e as evidências dos prejuízos eram tão grandes que uma das primeiras medidas tomadas por António Guterres foi a de voltar a pôr a hora como estava.


      Já passaram 25 anos e realmente a memória dos portugueses não aguenta tanto. Assim, aquela experiência de 1992/1996, já no esquecimento, faz com que haja hoje quem defenda a não adaptação da hora às épocas do ano e ainda se defenda que a hora deveria ser igual ao do resto da Europa, designadamente, igual à hora da nossa vizinha Espanha.


      Curiosamente, na nossa vizinha Espanha a discussão pública e académica é precisamente ao contrário, isto é, se devem ter a mesma hora de Portugal, por constatarem os mesmos problemas que já constatamos na experiência daqueles anos do então primeiro-ministro Cavaco Silva.


      Hoje, é o Decreto-Lei de Guterres, com o nº. 17/96 de 08MAR que assim estabelece:


      Artigo 1º.


      1 – A hora legal de Portugal continental coincide com o tempo universal coordenado (UTC) no período compreendido entre a 1 hora UTC do último domingo de Outubro e a 1 hora UTC do último domingo de Março seguinte (hora de Inverno).


      2 – A hora legal coincide com o tempo universal coordenado aumentado de sessenta minutos no período compreendido entre a 1 hora UTC do último domingo de Março e a 1 hora UTC do último domingo de Outubro (hora de Verão).


      Artigo 2º.


      As mudanças de hora efetuar-se-ão adiantando os relógios de sessenta minutos à 1 hora UTC do último domingo de Março e atrasando-os de sessenta minutos à 1 hora UTC do último domingo de Outubro seguinte.


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Comentários

  1. Bom dia. Um bem haja ao "GF", muita saúde e muitos anos de vida, por alimentar o meu conhecimento. Muito obrigado.

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