“Deixar chegar a ponto de rutura é forma enviesada de interferência”
«No discurso sobre o estado da União proferido pela presidente da comissão europeia, Ursula Von Der Leyen, a mesma apresentou como dever do órgão que preside e missão mais nobre, a proteção do Estado de Direito, como condição essencial à defesa da democracia, tanto das ameaças externas como dos vícios que as corroem a partir do interior.
Nesse sentido, enquanto pilar essencial do Estado de Direito, a presidente da comissão europeia voltou a insistir na independência judicial.
Salientou, ainda, a necessidade do reforço das sanções para crimes como o enriquecimento ilícito, o tráfico de influências e o abuso de poder, para além dos crimes mais clássicos, como o suborno e a inclusão da corrupção no regime de sanções em matéria de direitos humanos, porquanto a corrupção corrói a confiança nas instituições.
A inclusão no seu discurso da defesa do Estado de Direito como missão mais nobre da comissão europeia não se trata apenas de uma ocasionalidade temática, mas uma premência na Europa e no seio da própria União Europeia.
Fundada sobre valores como o respeito pelos direitos fundamentais, a democracia e o Estado de direito, tidos como consensuais, a União Europeia confronta-se hoje com correntes internas que podem fazer perigar o caminho traçado.
As reformas apressadas levadas a cabo por tendências políticas emergentes ou ressurgentes em alguns países da União vieram aumentar a influência política no poder judicial e fragilizar a sua independência, bem como controlar e instrumentalizar a ação do Ministério Público.
A eficácia do sistema judicial tem como pressuposto a sua independência.
Sustentar que um maior controlo do poder político sobre o sistema judicial permitiria aumentar a sua eficácia é um engodo, uma estratégia delineada com um único propósito de entorpecer o seu funcionamento e impedir que alguns não sejam alcançados, na sua essência, gerar uma manifestada desigualdade no tratamento perante a lei.
Mas a independência do sistema judicial não se basta com um quadro constitucional e legislativo adequado, exige ainda que o poder judicial, o Ministério Público e os organismos responsáveis pela aplicação da lei, disponham de financiamento, recursos humanos, capacidades técnicas, equipamentos e meios suficientes.
Não tenhamos ilusões!
Quando o Governo de um determinado Estado deixa o sistema de justiça chegar a um ponto de quase rutura, por falta de financiamento, recursos e meios, isso é uma forma enviesada de interferência na sua independência.
Portugal, como tem sido salientado por todos os intervenientes no sistema judiciário, caminha para a rutura.
A não intervenção do poder executivo, de forma cabal, no sentido de inverter este estado de coisas, constitui um inequívoco ataque à independência do sistema judicial e ao Estado de Direito.
Vamos acreditar que as palavras da Presidente da Comissão Europeia não vão cair em oblívio e que o Governo português acredita efetivamente numa sociedade baseado no Estado de Direito.»

Fonte: reprodução do artigo de opinião subscrito por Adão Carvalho, presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público (SMMP), publicado na revista "Visão".
Há, pelo menos, duas formas de fazer o que se quer quando há resistências. Ou se assume uma reforma com transparência e verdade, ou então de forma encapotada. Esta é feita com a omissão do que é devido, deixando os serviços cair em rutura para a partir daí justificarem o que sempre quiserem que fosse feito. Uma reforma á medida.
ResponderEliminarÉ a tal reforma silenciosa em curso, já anda sobre rodas e a alta velocidade. Oxalá não vá descarrilar.
Estamos a verificar a perda massiva de funcionários encargos de enorme responsabilidade.
O conhecimento organizacional não é transferido para os mais novos.
Está tudo irremediavelmente perdido e a recuperação já não vai ser fácil em muitos dos serviços, nomeadamente no MP.
VAMOS VER DAQUI POR QUINZE DIAS COM O NOVO PROJETO DE ESTATUTO
Ainda não apareceu o novo projeto do estatuto e eu, pessoalmente, já o aplaudo. E porquê, fácil, porque ao menos vão fazer alguma coisa, vão fazer aquilo que não foi feito nos últimos 10 anos e que todos sabem ser inevitável. A qualificação dos serviços é uma necessidade premente, não perceber isto é ter falta de largura de banda cognitiva.
ResponderEliminarEstou farto de remeterem a meritocracia no bolso, apenas para que funcione a lógica de tribalismo, a tal do cartão.
Estou farto.
Precisamos de gente nova e qualificada. Sem medo que
ResponderEliminarvenham a ser ou sejam melhores que nós.
Ao mesmo tempo precisamos que olhem para os seniores, os mais velhos, que têm a experiência para partilhar e sejam recompensados pelo trabalho e pela dedicação, enfim, que não sejam esquecidos.
Uma sociedade que trata bem os mais velhos, que esquece deles, que não se preocupa com os mais novos que estudaram, não é uma sociedade justa.
É o que penso.
E as belas das pensões vitalícias, que duplicam aos 60 anos??
ResponderEliminaré sabem quem é abrangido por tal benesse??? Os juízes do TC, claro!!
Os que poderiam por em causa tal medida, que nem a segurança social consegue explicar.
Assim, calam-se todos, enchem as tulhas bem cheias e vão para casa com reformas de 12k. Mais nada!
Isto é um pais de sobas.
Meia dúzia deles põem e dispõem como bem lhe apetece da vida de cada um e da da todos em geral. Depois, uma centena gravita em seu redor, para se ir safando e o resto são cantigas de vida sem esperança de melhoria, tal como fados fatalistas.
Sem dúvida.
ResponderEliminarContinuamos com uma sociedade de privilegiados ... e de intocáveis.
A saúde de uma democracia afere-se também pela tomada de partilha das decisões, nomeadamente as mais importantes.
Quando o MJ decide sem cuidar de saber do que pensam os visados pelas decisões é o espelho de um atavismo e autoritarismo em tudo idêntico as populismos que começam a proliferar na Europa.
O que dizer de um Viktor Orbán quando por cá tudo fazem para que se perpetuem no poder (que ocupam há cerca de 7 anos).
Não têm a coragem de partilhar as ideias que têm para a justiça com quem nela trabalha - pelo menos, que se saiba, com os OJ não partilharam nada.
Fazem, nas palavras do nosso PM, "reformas silenciosas" e quando dermos conta dessa inevitabilidade já está consumada a decisão.
Numa democracia não é assim, não é como nos regimes absolutistas e que se acreditava que o monarca cuidava da "felicidade dos seus subditos".
Numa verdadeira democracia não se escondem decisões só porque são impopulares ou de pouca aceitação.
ResponderEliminarNuma verdadeira democracia, como disse, são tomadas decisões partilhadas e para tal a participação de todos é um imperaivo.
O nosso MJ decidiu,se calhar porque se acham iluminados (como Luis XIV), que a decisão sobre nosso futuro não tem que ser escrutinada por nós, nos os OJ.
Assim, vai fazer o mesmo que fez antes: publicar o projeto do EOJ e depois, após reunirem para o chá das 5 da tarde (como fazia a rainha de Inglaterra) com os nossos representantes, tornam definitiva a sua decisão e "tá feito".
Vai ser um período tremendo, este que se avizinha, e azar para quem vai ter de lidar com ele!
Quero saber o que vai ser decidido sobre a nossa vida, quero participar na tomada de decisão!
É preciso reformar sistema de justiça ... todos o dizem!
ResponderEliminarE na administração também ... todos o subscrevem!
Pois se assim é porque é que nada acontece...
Várias causas são aventadas:
- falta de vontade;
- incompetência;
- resistências (o corporativismo);
- oportunidade.
É precisamente esta última que eu acredito se esteja a verificar.
Ainda não é o momento, pois todos sabem que é quando as partes estão mais fracas que se fazem melhores negociações.
E como assim estão a deixar que os serviços batam no fundo para poderem fazer o que entendem dever ser feito sem resistências.
Até lá, até qe isso aconteça, aguente-se quem puder!