Mais uma visão externa

      Luís Pais Amante, advogado, subscreve um artigo de opinião, publicado esta segunda-feira no Jornal da Mealhada, intitulado "Os Funcionários da Justiça e a Greve", que a seguir vamos reproduzir.


      Diz assim:


      «Hoje estou a tentar explicar o porquê, na minha modesta opinião, da Greve dos Funcionários da Justiça.


      Não é que pense que os próprios não têm os mesmos problemas que tem toda a designada Função Publica; todo o País. É só porque elas e eles, desde o 25 de Abril, têm sofrido ataques em demasia à sua condição (que constituía um estatuto superior) e quase não os vimos fazer Greve.


      Nem, praticamente, reclamar.


      Agora decidiram defender-se e aos seus direitos e ninguém sabe no que isto pode vir a dar, em boa verdade.


      O recato e a educação, neste País, não valem mesmo nada.


      São profissionais dedicados, que sofrem a sua condição interiorizando o sofrimento e exercem respeito pela vida das Pessoas, sem a badalar, na generalidade.


      .1. Viram as suas carreiras absolutamente estagnadas, apesar de, todos os dias exercerem funções acima, em responsabilidade e acréscimo, ao que lhes é pago;


      .2. Convivem com um défice enorme de Pessoal nos quadros e tapam buracos em todos os minutos da jornada de trabalho;


      .3. Acompanham muito mais quantidades de processos a cada ano que passa;


      .4. Não conseguem exercer os seus direitos de mobilidade;


      .5. E auferem uma tal miséria que nem tenho desplante para aqui dela falar.


      Eu, por via da profissão de Advogado – que exerço desde 1980 – tenho tido a felicidade de encontrar muitas e muitos Funcionários que dignificam o local onde trabalham, são portadores de uma lisura de trato muito acima da média e carregam a Justiça às costas!


      Literalmente!


      Os Juízes são importantes? Claro que sim e também são pouquíssimos;


      Os Desembargadores, idem aspas, aspas, aspas;


      Os Conselheiros – segundo algumas opiniões – são em demasia e perdem-se em atividades sem impacto real nos Tribunais, mais do tipo de “pompa e circunstância”;


      Os Procuradores são importantes? Claro que sim, também e ainda são menos, regidos por um emaranhado que ninguém compreende e com lideranças políticas, na prática, que têm deixado muito a desejar.


      !… mas a grande verdade é que a “máquina da justiça” emperrará em absoluto no dia ou dias em que estes Funcionários vierem a exercer o seu direito à indignação, através da Greve, o que se prefigura dada a amplitude das coisas e o volume das reivindicações …!


      Será muito pior do que o tempo parado da pandemia, com terríveis dificuldades na reposição dos prazos e das diligências.


      Parece-me, aliás, que estes nossos concidadãos estão fartos de sobrar para eles próprios (ainda que em pouca percentagem, diga-se) a culpa pela má imagem que a Justiça tem, o que é factual.


      Ora, aqui chegados, é um exercício elementar fazer uma pergunta simples:


      Se assim é, como é que todos os Governos têm pura e simplesmente ignorado uma classe profissional tão importante para a Justiça, para o Povo a quem se destina e, naturalmente, para o País?


      Afinal constituímos, ou não, um Estado de Direito? Essa miragem é só para consumo enganador?


      É um diacho de uma matéria incompreensível, na justa medida em que todos os programas de governo, todos os ministros da justiça, todos, mas mesmo todos os responsáveis deste País conhecem o problema, têm o diagnóstico na mão, mas nada fazem para promover as necessárias correções, apesar de saberem bem que o que está a acontecer é a implosão provocada da própria justiça a que, no discurso, juram amor maior.


      Diríamos que o paradoxo é tanto mais complexo quanto sabemos que à justiça de fazer de conta (sem condições de trabalho; sem pessoal; com carência de formação e de atualização; com a generalização de sistemas a estourar, obsoletos; em entorpecimento; com gente tão desmotivada) contrapõe-se o não andamento dos processos, com tudo o que isso incorpora e transporta para a Sociedade: a vigarice nas relações de trabalho, o incumprimento na relação contratual, a disrupção do regime parental, o abuso puro e duro da legislação penal, lactu sensu considerada e o surgimento de máquinas infernais de negociatas, quantas familiarizadas com titulares de cargos importantes.


      E assim sendo, tudo se conjuga para podermos afirmar, em termos analíticos, que quem manda – e quem tem mandado – nos destinos de nosso País, quem é pago – demais – para o manter no rumo certo, se não tem atuado há tanto tempo, é porque quer, objetivamente, que tudo aquilo que caracterizei acima se vá abandalhando, progressivamente.


      E o crer, nestas matérias, faz toda a diferença!


      O que isenta em absoluto os Funcionários da Justiça; mas coloca as várias instâncias do poder em sentido…


      E o que nos levará a ter de equacionar, corretamente, a questão da corrupção que grassa por aí a esmo e que está em descontrole absoluto, tal como confirmam todas os organismos de controlo externo desta desgraça, onde aparecemos com o rótulo de “corruptos”!


      Até agora, sem ninguém – dos que fazem as tais juras e não cumprem – ter sido inculpado. Todos assobiam pró lado e muitos beneficiam com isso…»


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      Fonte: “Jornal da Mealhada”.

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