O trabalho invisível e a monumentalidade escondida hão de emergir

      Aquando da intervenção da ministra da Justiça, Catarina Sarmento e Castro, na Assembleia da República, no âmbito da apreciação na especialidade da proposta do Orçamento do Estado para 2023, concluiu tal intervenção afirmando o seguinte:


      «Com as pessoas, pelas pessoas e para as pessoas, estamos a fazer acontecer. Muito Obrigada.»


      Ora, se a ministra da Justiça está com as pessoas, pelas pessoas e para as pessoas, não considera, certamente, que os Oficiais de Justiça possam estar incluídos nessa categoria de seres.


      Estes seres que desempenam funções por todo o país, nos tribunais e nos serviços do Ministério Público, assegurando todos os serviços no dia-a-dia, são os seres esquecidos ao longo dos anos pelo Ministério da Justiça, vendo sempre adiada a sua carreira e, consequentemente, o seu futuro.


      Quando a atual ministra da Justiça tomou posse, a única carreira que não tinha sido revista era a carreira dos Oficiais de Justiça. Perante esta situação de exceção e perante todos os protestos de luta destes trabalhadores, impunha-se que a ministra da Justiça, num ato de mero senso comum, focasse toda a sua atenção, ou grande parte dela, na resolução deste assunto atrasado e descuidado, conferindo-lhe a máxima prioridade. Mas não o fez.


      No Parlamento, a ministra elogiou o atual orçamento de Estado para a Justiça, considerando-o “mais elevado de sempre” e que, disse, “reforça o rumo que traçámos, e que permitirá que, em 2023, todo o trabalho de planificação, de racionalização e de estabelecimento de prioridades – um trabalho invisível que, por isso, deixa escondida a monumentalidade da sua dimensão – possa emergir e revelar-se.”


      Tomem bem nota: há um “trabalho invisível”, diz a ministra da Justiça, que, por ser “invisível”, isto é, que não se consegue ver, “deixa escondida a monumentalidade” da dimensão desse mesmo trabalho invisível que só se revelará, emergindo dessa invisibilidade, graças ao Orçamento de Estado para 2023.


      Será que destas afirmações da ministra da Justiça aos deputados na Assembleia da República, se pode depreender que os Oficiais de Justiça, seres que têm estado invisíveis nessa monumentalidade, emergirão também em 2023, como pessoas?


      Estamos em crer que sim, pois a ministra da Justiça reforça o conceito do aparecimento dessa monumentalidade invisível, numa mensagem perfeitamente alinhada com o sebastianismo de que padece o Povo português, afirmando que “Foi com esse ímpeto de “fazer acontecer” que iniciámos este mandato, em 2022, é com este ímpeto que nos propomos continuar nos próximos anos, e essa vontade já começou a concretizar-se em resultados”.


      E prossegue assim:


      «Está em curso o reforço da estrutura de Recursos Humanos e de dignificação dos que connosco trabalham, iniciado com um aturado trabalho de identificação de necessidades. É um trabalho bem além da prospeção burocrática, da consideração simples – quando não simplista – dos lugares previstos nos quadros dos serviços, procedendo-se ao levantamento de dados importantes, como o número de saídas e de entradas registadas nos últimos anos e o número de trabalhadores próximos da idade de reforma. Este levantamento, que nos dá uma noção mais realista das necessidades, vai agora permitir-nos fazer uma planificação plurianual dos recursos.»


      E deu logo ali exemplos: o recrutamento para a Polícia Judiciária até 2026, de um total de 1100 trabalhadores das diversas carreiras, acrescentando que no “Instituto dos Registos e do Notariado, estão em processo de recrutamento novos trabalhadores das carreiras gerais, que se vão juntar aos 269 assistentes técnicos que ingressaram entre 2021/22 e a mais de uma dezena de técnicos superiores em regime de mobilidade, ainda reforçados com a entrada de 29 técnicos superiores e 3 especialistas de informática”.


      E no que se refere aos tribunais e ao seu reforço de recursos humanos, disse assim:


      «Nos Tribunais, a assessoria técnica é uma realidade que começa a concretizar-se, aguardando-se a entrada progressiva de 28 profissionais para apoiar os magistrados do Ministério Público e de 24 para apoiar os juízes nos tribunais judiciais.»


      Concluindo estes dados repetindo aquilo que é o seu “slogan”: “Queremos continuar este caminho e fazer acontecer”.


      E para “fazer acontecer”, disse ainda:


      «Muito em breve, retomaremos o debate com as associações sindicais em torno da revisão do Estatuto dos Oficiais de Justiça. E continuaremos a capacitar os recursos humanos, porque a dignificação dos trabalhadores e a transformação da justiça faz-se também com formação. Mas o investimento em recursos humanos também se faz pela otimização das suas funções, canalizando-os para tarefas de valor acrescentado e deixando os processos repetitivos e mecanizados a cargo de ferramentas tecnológicas capazes de as assegurar – continuaremos a trilhar esse caminho.»


      Ora, perante este “ímpeto” de “fazer acontecer”, podem os Oficiais de Justiça estar descansados e aguardar que um dia, talvez de nevoeiro e talvez durante o próximo ano, essa sua monumentalidade invisível “possa emergir e revelar-se”.


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      Fontes: "Governo - página" e "Intervenção MJ".

Comentários

  1. Nada mudou, mais uma corsário que chegou para nos continuar a tirar o pouco que já temos, mas com muita diplomacia e sofisticação, talvez porque também não merecemos mais , nunca fomos capazes de nos impor verdadeiramente e fazer valer a nossa importância.

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  2. Tenho sido muito crítico nos comentários que faço neste blog e alumiado o que verdadeiramente se passa com a Justiça, nomeadamente nos tribunais apontando um fator comparador , qual seja o das outras profissões, também no setor da Justiça (Conservatórias, PJ, etc.) mas também noutras profissões de maior exigência funcional (como o caso da AT), e o conteúdo de profissões jurídicas noutros países (nomeadamente o vizinho).

    - Disse que estava uma reforma silenciosa em curso, e confirma-se a sua existência agora adjetivada de invisível;
    - Disse que os cargos de maior importância, de assessoria aos magistrados/gestão da comarca, iriam passar para Técnicos Superiores, o que se confirma com os anunciados recrutamentos pela Sra. Ministra da Justiça;
    - Referi a crença da Sra. Ministra na inteligência artificial e nos algoritmos, como parte significativa da solução do problema dos recursos humanos o que igualmente se confirma;
    - Referi que a carreira iria ser dividida, entre executores de taregas mais complexas (gestores processuais e de trâmites) e os restantes, de tarefas eminentemente administrativas, e está confirmado (nos tribunais, contrariamente à reforma de 2014, em que os assistentes técnicos e operacionais tenderiam a desaparecer, agora, com este Governo e a sua anunciada reforma invisível, tenderão a ser em maior número, e com isso - mais automatismos e algoritmos desenvolvidos, mais Assistentes Técnicos e Técnicos Superiores para auxilio aos magistrados - existirão menos Oficiais de Justiça no futuro);
    - Referi que a classe foi secundarizada no papel da administração da justiça, o que se confirma, tendo sido elevado a papel principal o de assessoria técnica ao magistrado (que poderia e deveria ser levado a cabo pelos OJ com preparação para tal) recrutados externamente e em comissão de serviço.

    Em jeito de conclusão podemos afirmar que vai continuar a existir uma classe de Oficiais de Justiça, mas não como a conhecemos atualmente, pois que o papel mais importante será o dos Técnicos Superiores/Assessores, e o de Assistentes Técnicos, ficando os OJ entre estes, a executar tarefas um pouco mais complexas e por isso um poucochinho melhor remuneradas para trabalhar fora de horas e ficar em disponibilidade permanente.
    Embora não tenha o dom da adivinhação, adivinho que a carreira deixará de ser pluricategorial aumentando o número de posições remuneratórias (escalões) para 9 (= assistente técnico) ou 14 (= T. Superiores). Os cargos de chefia passarão a ser desempenhados em comissão de serviço de 3 anos.

    Deixamos o assunto da revisão da carreira esquecido na espuma dos dias, passamos a falar de outros problemas menores (como o livro de ponto, etc.) e iremos ser surpreendidos com uma reforma que não será do agrado de muitos.

    Eu por mim, já anseio para que se descubra o manto da alegada reforma invisível (MJ) ou silenciosa (PM) e alguma coisa aconteça nos Tribunais.



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  3. Os problemas nos Tribunais dos grandes núcleos urbanos adensa-se a cada dia que passa e a solução poderia passar pelo digital, de forma a possibilitar a execução de tarefas de forma indiferenciada pelos funcionários dos núcleos das comarcas, independentemente da localização do processo - o que é possível até ao términos da fase de articulados na maioria dos processos cíveis (mesmo com automatismos desenvolvidos) e, na fase seguinte, de saneamento e de julgamento, o trâmite passaria a ser assegurado pelo núcleo onde foi distribuído o processo.

    Com esta solução evitar-se-ia a desertificação das zonas com menos densidade populacional, desenvolver-se-ia um aproveitamento eficiente da capacidade instalada (recursos materiais e humanos) com o reforço dos quadros de pessoal.

    A manutenção do "esqueleto" da carreira poderia ser uma realidade se nos conformarmos que há tarefas eminentemente administrativas e redundantes (por exemplo o registo de processos crime no OPC e na unidade central do DIAP) que podem ser evitadas ou subtraídas aos OJ, podendo por outro lado assumir outras mais complexas, nomeadamente de assessoria (técnica e não somente de agenda) ao magistrado.

    Não foi essa a luta que se travou, o slogan foi ou tudo ou nada, e temo que ficaremos com um pouco mais que isso (um nadinha mais).

    S.M.O. é o que penso!

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  4. Colega (comentário das 09:56) tudo o que refere é algo que todos sabemos, portanto nada aporta de novo. Curioso é ler o último comunicado do SFJ e perceber que agora aposta nos assistentes operacionais e assistentes técnicos, consciente de que estes trabalhadores serão em maior número em breve e o que importa é garantir as quotas...

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  5. Tem razão colega, apenas as escrevi porque ainda havia quem pensasse que tudo poderia ficar na mesma, como até aqui, como se isso fosse possível!

    Mas nem tudo está perdido, pois quem pensava assim nada perde, dado que a situação atual até já era do seu agrado, para que é que era preciso o nível 3 de complexidade funcional, dizia-se.

    Pelo que parece vamos continuar a ser especiais, na medida em que temos sofrido um (des)tratamento especial que, por sinal, se vai perpetuar.

    Mas tudo poderia ser diferente e não vai ser.

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  6. Com este destratamento, a continuar, alguem vai querer trabalhar nos tribunais?
    Hão-de querer gente e poucos vão aparecer. Vai ser como na policia que já teve de baixar as exigencias de habilitações, da altura dos candidatos e da idade.

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  7. Carlos Almeida e a deliberação do plenário de 15 de julho de 2022?!...

    "...Os Oficiais de Justiça deliberaram ainda, mandatar o SOJ para desencadear todas as ações de luta necessárias para se alcance a dignificação e valorização da carreira e, bem assim, promover a realização da justiça, enquanto pilar fundamental do Estado de Direito Democrático

    Lisboa, 15 de julho de 2022"

    O SOJ foi mandatado para desencadear todas as ações de luta e não para submergir no silêncio ou para encontrar uma qualquer "bomba inteligente" como o fez o SFJ no passado e que deu péssimos resultados.

    As decisões aprovadas democraticamente em plenário de trabalhadores têm que ser cumpridas. O SOJ não pode seguir os mais exemplos do passado protagonizados pelo SFJ!


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  8. Loucos são aqueles que ainda alimentam o tacho dos sindicalistas, defensores da bazófia ideológica que os guinda a outros voos.
    Tudo mais é verborreia.

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