A Sindicância ao “estado de calamidade” dos inquéritos urgentes
A pomposamente denominada “Secção Especializada Integrada de Violência Doméstica” (SEIVD), criada no Porto e desenhada para resolver um dos fenómenos criminais com maior ocorrência no nosso país, senão mesmo o maior, afinal não está a resolver nada, bem pelo contrário.
O desenho dessa secção não teve em conta um número adequado de Oficiais de Justiça para que a secção e os processos ali concentrados pudessem realmente andar.
O desenho contemplou a secção com 7 procuradores, mas o motor só tem 5 Oficiais de Justiça e diz a diretora do DIAP do Porto que o número de Oficiais de Justiça deveria ser de, pelo menos, 14.
Os Oficiais de Justiça já há muito que dão notícia que a situação na SVEID é insustentável e, por fim, depois de um advogado ter chamado a atenção para o problema, teve este a atenção que não foi dada antes aos Oficiais de Justiça.
O alerta final terá chegado à Procuradoria-geral da República (PGR) após um pedido de aceleração processual feito por um advogado relativo a um processo de violência doméstica.
Depois de recolher informação sobre os motivos para o atraso, a Procuradora-geral da República, Lucília Gago, ordenou a instauração de uma sindicância à SEIVD, devido ao caos instalado neste departamento do Ministério Público, nomeando uma inspetora do Ministério Público para proceder à investigação.
Os resultados da anunciada sindicância já se adivinham, porque é fácil e porque desde há muito que os Oficiais de Justiça anunciam a insustentabilidade daquela secção com o número reduzido de Oficiais de Justiça ali colocados.
E isto sucede nessa secção e em tantas outras pelo país fora e só não há mais “estados de calamidade” e de caos, tanto em secções do Ministério Público como em secções judiciais, porque ainda há Oficiais de Justiça teimosos que trabalham muitas horas a mais, sem qualquer compensação, para que as coisas não descambem.
É esta a realidade: gente que se mata a trabalhar – e quando se diz “mata”, quer-se dizer isso mesmo –, cada vez mais prejudicados em tantos aspetos da sua carreira; nunca ouvidos nem nas mais pequenas reivindicações e submissos, especialmente com a utilização de um truque baixo que os reduz a uma situação de para-escravização.
E o truque e este: os Oficiais de Justiça deslocados das suas áreas de residência, a viver em quartos partilhados com imigrantes de várias nacionalidades, longe dos seus, não saem do trabalho a horas, não têm dinheiro para gastar e a sua casa é um amontoado de gente, não tendo, portanto, vontade de regressar a casa, após o horário normal de trabalho e, assim, vão ficando até mais tarde e não deixam o seu local de trabalho a não ser para dormir e para ali vão de novo durante os fins de semana, pois a ida à casa é um luxo que só ocorre algumas vezes por ano.
Estes escravizados Oficiais de Justiça são os que trabalham quase dia e noite e é por eles que o sistema ainda não entrou todo em rutura.
Claro que para a administração governamental gente assim, a trabalhar por dois ou por três a custo tão baixo, é um verdadeiro achado e para que tal continue, basta com aplicar um truque muito simples e muito sujo: não lhes proporcionar regalias e, muito menos, vantagens remuneratórias, mantendo-os necessitados e ainda o mais deslocados possível, para que não tenham hipótese de viver a sua vida e continuem a aguentar com tudo.
E tudo isto acontece especialmente no sul do país e na região de Lisboa. Já na zona norte, a falta de Oficiais de Justiça ocorre porque aqueles que que estão colocados nesta zona são mesmo dessa zona, mas os demais estão colocados no sul e na área metropolitana de Lisboa.
A realidade da SEIVD do DIAP do Porto acabaria também por ser exposta, em novembro deste ano, num artigo de opinião no Público, de André Lamas Leite, professor universitário e advogado.
Num processo envolvendo um seu cliente suspeito de violência doméstica, sujeito à medida de coação de afastamento da vítima, o advogado pediu, a 30 de agosto, autorização para o arguido homem se deslocar à antiga casa de forma a poder recolher roupas de inverno e outros objetos pessoais, sugerindo que tal deslocação podia ser acompanhada pela polícia.
Entre setembro e outubro, nenhuma resposta. Até que Lamas Leite, em novo requerimento de 2 de novembro, insistiu com o pedido, “ameaçando” com uma queixa ao Conselho Superior do Ministério Público.
Na volta do correio eletrónico, a diretora do DIAP do Porto, a procuradora Branca Lima, elenco-lhe os motivos do atraso na resposta, revelando o caos na SEIV que denominou como “estado de calamidade”.
Até 17 de outubro de 2022, nos casos de violência doméstica da SEIVD do DIAP do Porto, havia:
1732 despachos por cumprir,
2214 papéis por tratar/juntar a processos,
160 oficiosidades por cumprir,
318 novos processos entrados entre 17 de agosto e 14 de setembro,
3508 processos não movimentados há mais de um mês,
2515 processos não movimentados há mais de três meses,
1040 processos não movimentados há mais de seis meses e
255 processos não movimentados há mais de um ano
Note-se bem que, de acordo com lei, todos os processos de violência doméstica têm carácter de urgência, correndo até em férias judiciais. Porém, os números da SEIVD do Porto fizeram soar os alarmes no Ministério Público, já que, praticamente, os processos estão parados.
A diretora do DIAP do Porto referiu que a situação era ainda mais grave, devido à falta de Oficiais de Justiça (cinco para sete procuradores, quando, na sua opinião, deveriam ser 14) e que muitos tinham já pedido para sair “face ao enorme esforço e pressão a que estavam sujeitos”. Branca Lima refere mesmo que a situação está num “estado de calamidade”.
De acordo com informações recolhidas pela “Visão” junto de procuradores do Ministério Público, existe um “mau ambiente de trabalho” na secção, não só pela falta de Oficiais de Justiça e a enorme carga de serviço, mas também por uma má relação entre os Oficiais de Justiça e a coordenadora da secção, a procuradora Teresa Morais.
Em defesa dos magistrados do MP, Adão Carvalho, presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público, defendeu que tal estado de coisas “ não é imputável ao Ministério Público, nem aos Oficiais de Justiça que nele exercem funções, mas aos sucessivos governos que não têm investido na justiça ou, melhor dizendo, não têm investido no que é efetivamente relevante, levando os serviços a uma situação de total rutura e desgaste para todos os que neles trabalham”.

Fonte: artigo subscrito pelo jornalista Carlos Rodrigues Lima na revista "Visão".
Uma verdadeira república das bananas sustentada pela mão de obra escrava. Isto coloca os of. de justiça principalmente os auxiliares num verdadeiro dilema. Só batendo no fundo é que haverá luz ao fundo do túnel, mas isso implica abdicar do "brio e do zelo" e desobedecer a chefias que não passam de biltres da administração. A verdade é que todos nós acomodamos à escravidão e não procuramos ser livres desta escravidão, apenas procuramos ser o "rei dos escravos". Admiro os colegas que tiveram coragem de sair dos tribunais e tenho pena de não ter essa coragem e esperar que sejam outros a lutar por mim, nomeadamente sindicatos e governos. Sou tão estúpido - sou of. de justiça.
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ResponderEliminartristeza de profissão mesmo
há Oficiais de Justiça teimosos que trabalham muitas horas a mais, sem qualquer compensação, para que as coisas não descambem.
É esta a realidade: gente que se mata a trabalhar – e quando se diz “mata”, quer-se dizer isso mesmo
Agora o que está na moda é os senhores magistrados ''mandarem-se'' para cima dos Oficiais de Justiça quando as coisas correm mal.
ResponderEliminarTambém há falta de magistrados no Ministério Público mas o ''milagre'' das acumulações resolve tudo.
São uns mercenários.....
Isto só vai mudar quando acontecer um desgraça, até lá é a vergonha.
Um abraço a esses colegas que trabalham nessas miseráveis secções
Os novos assistentes técnicos já começaram a receber os recibos de vencimento deste mês...
ResponderEliminarEsta situação miserável já foi massivamente divulgada nas televisões? NÃO! Então, vai continuar tudo na mesma! E a quem cabe fazê-lo? Aos sindicatos! E fazem-no? NÃO!
ResponderEliminarMuitos oficiais de justiça devem sofrer do Sindroma de Estocolmo e terem traços masoquistas de autoflagelação psicologica. Não se importam de sofrer e tem simpatia pelo abusador entidade patronal.
ResponderEliminarOficiais de Justiça a progredirem de cada vez mais para assistentes operacionais. Chega!!
ResponderEliminarEssa deve ser a intenção deles. Os tribunais a funcionar com mão de obra barata. Para os cargos de chefia de secções e secretários, que serão poucos, é que vão exigir formação superior. E serão cargos politicos de nomeação.
ResponderEliminarEste o novo paradigma dos tribunais.
ResponderEliminarcHega-te CHEGA
A cerimónia de abertura do ano judicial de 2023 vai decorrer a partir das 15h00 de 10 de janeiro, no Salão Nobre do Supremo Tribunal de Justiça, em Lisboa.
ResponderEliminarConvoquem um plenário nacional ou uma greve para esse dia.
Não podemos continuar a aceitar que existam Oficiais de Justiça deslocados das suas áreas de residência, a viver em quartos partilhados com imigrantes de várias nacionalidades, longe dos seus, a realizarem horas extraordinárias não remuneradas e sem
dinheiro para ter uma vida digna.
Vamos todos dizer "presente" e realizar uma mega manifestação/concentração
Já passaram 3 anos, vamos lembrar sua Excelência o Presidente da República e a atual Ministra da Justiça do discurso de Francisca Van Dunem na cerimónia de 2019.
BASTA!....
DN:
ResponderEliminar"...Pouco antes do início da cerimónia, o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, atravessou a rua para falar com os dirigentes sindicais, mostrando-se, segundo Fernando Jorge, interessado nas reivindicações da classe e pedindo que lhe fossem enviados para Belém documentos sobre o assunto".
Haja memória:
ResponderEliminarDN:
"...Quando a ministra da justiça, Francisca Van Dunem, começou a discursar, os milhares de manifestantes, que assistiam à cerimónia através de um ecrã gigante colocado no exterior do edifício do STJ, viraram-se de costas, apuparam, assobiaram e acenaram com lenços brancos.
O protesto foi audível na Sala do Supremo, tendo a ministra, durante o discurso, feito referência ao protesto, dizendo que "hoje, no dia de abertura do ano judicial", os funcionários "estariam melhor cá dentro do que lá fora".
E "a morte da decência" ?!...
Oficial de Justiça, já "fostes" ...
ResponderEliminarComunicado do SOJ:
ResponderEliminar"...Assim, exige-se ao Ministério da Justiça que, ainda este ano, inicie esses processos. Este Sindicato, SOJ, não se desinveste de apresentar, caso a carreira continue sem respostas, novas ações de luta, ainda que possam coincidir com o período de “suspensão dos prazos judiciais” – 22 de dezembro a 3 de janeiro de 2023.
Lisboa, 2022-11-30"
Ups!
O final do ano está aí!