O Destacamento com pagamento extra e a nova Greve por tempo indeterminado

      Na sequência do artigo aqui ontem publicado, queremos chamar a atenção para alguns aspetos como o facto do destacamento anunciado pela DGAJ para Sintra e Cascais não ser um destacamento ao abrigo do disposto no artigo 55º do Estatuto EFJ, mas ao abrigo da previsão da modalidade de “destacamento excecional” descrito no artigo 56º do mesmo diploma.


      Qual é a diferença?


      O destacamento excecional tem uma duração limite de 6 meses, podendo ser prorrogado por uma vez, isto é, a duração máxima do destacamento é de 1 ano, já esticado, após o que regressará o Oficial de Justiça ao seu lugar de origem.


      Então esta corrida à bombeiro, por meses ou até 1 ano, terá interesse para alguém?


      Uma vez que neste tipo de destacamento haverá lugar ao pagamento de ajudas de custo, o Oficial de Justiça destacado, caso não possa deslocar-se diariamente para o seu atual domicílio e deva pernoitar todos os dias, deslocado na localidade do destacamento, poderá auferir até mais 50 euros diários por essa deslocação.


      No entanto, caso tenha de pagar um alojamento extra a preços de mercado e as refeições diárias, então esse abono diário será diluído nessas despesas e o interesse no destacamento fica igualmente esbatido.


      Outro aspeto curioso na mobilidade anunciada é o facto de só se aceitarem candidatos oriundos de Comarcas onde a falta de Oficiais de Justiça não supere os 16,6%, isto é, oriundos das Comarcas onde a falta seja na proporção de 16 a 17 Oficiais de Justiça em cada 100.


      Por exemplo, numa comarca com 200 lugares para Oficiais de Justiça, mas que estejam a faltar preencher 33 ou menos lugares, é considerada pela DGAJ uma comarca afortunada e, portanto, poderá dispensar Oficiais de Justiça para o destacamento. Mas será mesmo uma comarca afortunada com a falta dessas dezenas de Oficiais de Justiça?


      Por outro lado, é prática assente desde há muitos anos que a DGAJ questione os órgãos de gestão de cada comarca sobre se concordam com o destacamento dos Oficiais de Justiça e, por regra, em face dos défices, todos respondem negativamente aos pedidos, ninguém dispensando nenhum Oficial de Justiça a não ser que, em casos muito concretos e raros, se queiram ver livres desse determinado indivíduo. A DGAJ sempre negou destacamentos por os Oficiais de Justiça não serem dispensados pelos órgãos de gestão.


      Assim, resta a dúvida sobre se esta consulta será efetuada também, desta vez, para este destacamento e se a pronúncia das comarcas será levada em conta ou se nem sequer serão ouvidas, para que não haja o empecilho de todas dizerem que também têm carências de pessoal e que não podem dispensar ninguém, frustrando completamente esta movimentação por destacamento excecional.


      Claro que a opção da DGAJ em acudir àqueles tribunais por via de um destacamento, constitui uma má opção, pois a saída dos lugares de origem não pressupõe a entrada de ninguém para esses mesmos lugares, o que já poderia ocorrer num Movimento.


      A DGAJ podia perfeitamente lançar um Movimento Extraordinário, ainda que limitado a esses 26 lugares; um mini movimento, tão mini quanto tantos outros já efetuados no passado, mas que, por esta via, permitiria a possibilidade de preenchimento das vagas emergentes do próprio Movimento.


      Por que razão não optou por esta modalidade, preferindo a provisoriedade do destacamento?


      Recordemos que o órgão de gestão da Comarca de Lisboa Oeste comunicou a falta de 161 Oficiais de Justiça, noticiando o Público que esse número já estava atualizado para 180, mas que com 80 tarefeiros por dois anos já se aguentaria o serviço.


      Nem 180, nem 161, nem 80; apenas 26 e por seis meses que poderão ser prorrogados por uma vez mais.


      Será que a necessidade desses 26 é meramente transitória? Será que 26 é um número excessivo? Será que depois de ali serem colocados estes 26, passados seis meses a um ano já não haverá necessidade de os manter?


      Não será esta uma necessidade permanente ocupada temporariamente? Não serão estes 26 possíveis candidatos tarefeiros, com direito ao abono de ajudas de custo que podem totalizar um novo vencimento mensal de valor semelhante ao que já auferem, tarefeiros idênticos aos usados na área da Saúde, trabalhando lado a lado com diferenças de remuneração que podem ser do dobro?


      Será esta a nova modalidade usada para acorrer aos problemas que, como a própria DGAJ considera, sem a mesma, “não é possível assegurar o funcionamento dos serviços dos núcleos”?


      Tantas questões, porque se mostra incompreensível a opção tomada e a teimosia em não resolver o problema, mas apenas desenrascá-lo.


      Qual será o motivo deste impasse; desta suspensão do interesse em resolver verdadeiramente e com caráter definitivo a falta de Oficiais de Justiça? Será pelo Estatuto que se cozinha? Será a crença na implementação de novas tecnologias de informação e automatismos de algoritmos e inteligência artificial? Será o interesse no aumento da externalização de serviços para empresas privadas, usando o velho método do desgaste do funcionamento atual para demonstrar tais necessidades, como sempre se fez noutras áreas, tanto dentro como fora da justiça, já privatizadas?


      Mais uma vez tantas questões que correspondem, não apenas a uma mera curiosidade, mas a uma perturbação que preocupa a estabilidade e a esperança no futuro.


      Dos dois sindicatos que representam os Oficiais de Justiça apenas o Sindicato dos Oficiais de Justiça (SOJ) fez um breve comentário na sua página do Facebook sobre este assunto, dizendo o seguinte:


      «”(…) não é possível assegurar o funcionamento dos serviços dos núcleos (…)" Começa a reconhecer-se a realidade: sem Oficiais de Justiça não é possível garantir o funcionamento do Órgão de Soberania "Tribunais"...»


      Os Oficiais de Justiça, no entanto, gostariam de uma maior intervenção desses seus dois sindicatos ditos ativos (SFJ e SOJ) – por oposição aos outros dois criados, mas inativos: o SNOJ e o SFMP –, intervenção essa que é ansiada constantemente.


      Nesse sentido, é louvável a pronta ação do SOJ apelando ao Presidente da República para que convoque o Conselho de Estado em face do risco em que se encontra o Órgão de Soberania, manifestamente assumido pela entidade governamental, que não consegue, não é capaz, de solucionar a falta de Oficiais de Justiça admitindo que esgotou as possibilidades e que “não é possível assegurar o funcionamento dos serviços”.


      Também é louvável a convocação da greve por tempo indeterminado, igualmente da iniciativa do SOJ, a iniciar a 10 de janeiro – data coincidente com a sessão solene no STJ que marca o início do ano judicial – por ser algo que se impõe, devendo o aviso prévio de greve (já entregue) ser agora divulgado pelo SOJ aos Oficiais de Justiça com brevidade, para conhecimento da modalidade dessa greve por tempo indeterminado.


ViajanteMalaMaoNoAr.jpg


      Fontes: “DGAJ-Notícias”, “DGAJ-OfícioCircular”, “SOJ-Facebook”, "RTP” e "DGAEP-GrevesComunicadas".

Comentários

  1. Acorda Toninho, á seu grande dorminhoco.

    ResponderEliminar
  2. Para revitalizar e impulsionar a greve de 1999 decretada pelo SFJ e com
    custos reduzidos para a bolsa dos Oficiais de Justiça, podia ser decretada uma greve de 30 minutos por dia, das 16,30 às 17,00, já que a greve a partir das 17,00 se mantém em vigor.

    Contudo, entendo que no 10 de Janeiro a greve deve ser geral e durante todo o dia, para sinalizar o descontentamento generalizado de todos os Oficiais de Justiça, no dia da cerimónia da abertura de ano Judicial, com uma grande concentração de trabalhadores no local da realização da cerimônia.

    ResponderEliminar
  3. Greves avulsas, sem planeamento, sem gradação, sem objectivos, só porque sim; não, obrigado
    Greve dia 10, com marcação de uma outra de, pelo menos 10 dias, num limite temporal muito próximo, dando margem para o governo ir de encontro as nossas pretensões, caso o queira; greve assim, sim.

    ResponderEliminar
  4. Com os últimos acontecimentos políticos, temos uma janela de oportunidade, que, a meu ver e se nada mais ocorrer, se dará durante todo o mês de janeiro
    Com tudo o que está a acontecer e o que se passa no ministério da justiça que é só, o mais inactivo, designadamente não resolvendo e não querendo resolver os graves problemas existentes nos tribunais, podemos aproveitar e denunciar, a sério, tudo o que se passa em Cascais, em Sintra, no porto, na madeira, enfim, em todo o país.
    Essa denúncia forte, seria acompanhada da marcação de uma greve de, pelo menos dez dias, marcada conjuntamente por ambos os sindicatos.
    O nosso problema, em vez de ser a solução, são mesmo os sindicatos e respectivos representantes, que não querem e não sabem

    ResponderEliminar
  5. Não querendo aqui referir o facto de a partir de hoje passarem a ser, os trabalhadores da Segurança Social IP, trabalhadores camarários, a que, pelo andar da carruagem lá chegarão os OJ, numa espécie de justiça municipalizada, pergunto:
    Se o OJ prática atos, tentando ajudar o cidadão, da "esfera do conteúdo profissional" de um Advogado ou de um Solicitador, tal é procuradoria ilícita, mas assistentes operacionais ou técnicos, vulgo, tarefeiros (palavra usada para mascarar) a desempenhar conteúdo estatutário profissional de Oficial de Justiça não será usurpação de funções?

    Qual é o limite.

    Voltamos aos tempos da "tábua rasa"?

    Segurança jurídica nula?

    Avizinham-se tempos muito difíceis de conturbação social.

    ResponderEliminar
  6. A DGAJ reconhecer que esgotou as possibilidades ao dispor e que não consegue assegurar o normal funcionamento de dois tribunais( não serão mais?), é de fato grave e boa fosse a Ministra estar em funções há pouco tempo, seria concerteza um motivo para de demitir.
    Agora pedir a formação do conselho de estado é apenas uma atitude populista sem qualquer efeito prático.
    Brincar com as instituições apenas para chamar a atenção, apenas descredibiliza quem o faz.

    ResponderEliminar
  7. Somos todos culpados da situação.

    O que está a acontecer é uma espécie de política de terra queimada para sobre ela se desenhar e construir um modelo diferente sem grandes sobressaltos cívicos.

    A dita reforma silenciosa pode parecer não ter contado com estes imprevistos, mas nada de mais falso, contou certamente com isso para poder fazer ingressar nos quadros dos tribunais pessoal oriundo de outros serviços.

    A politização dos serviços passou de ser um risco a um facto consumado.

    É seguir a nossa vidinha porque os nossos destinos já estão definidos e entregues, não foram deixados ao acaso.

    Temos de cumprir com as nossas obrigações e deixar o resto com quem se direito.

    Somos derrotistas e resignados.

    ResponderEliminar

  8. A greve com início no dia 10 é POR TEMPO INDETERMINADO...




    ResponderEliminar

  9. Ao Presidente compete avaliar da necessidade da convocação do Conselho. Porém, pode optar por outras diligências junto do executivo que está em queda livre.




    ResponderEliminar
  10. Sou natural de uma terra onde viveu uma lenda da nossa história o chamado "Zé do Telhado".
    Esta personagem que lutou pelos liberais e que se sentiu prejudicado na carreira militar, enveredou por uma vida de ladroagem, liderando um bando, e para obter a proteção do povo decidiu que uma parte do saque era entregue aos mais desfavorecidos.eram cerca de 9 e por isso dividiam o valor por 10, dando essa parte 1/10 ao povo.
    Resumindo ficavam com 9/10 do que roubavam.
    Reza a lenda de que roubava aos ricos para dar aos pobres, mas não foi bem assim.
    Era sem dúvida um homem destemido e com coragem e por sinal preocupado com a redistribuição da riqueza.
    Se a elite da época explorava os desfavorecidos, porque não explorar também os mais favorecidos, a gente rica.
    É certo que roubava só quem tinha muito e ajudava os mais desfavorecidos.

    Isto só acontecia porque as gentes ricas dominavam o poder local, nomeadamente a justiça, e havia um sentimento de impunidade destas gentes que legitimamente exploravam os pobres.

    Hoje pergunto se o que se está a passar , um país com cada vez mais pobres e um núcleo restrito de gente rica, com um Estado assistencialista e cada vez mais presente no orçamento familiar das pessoas, não se assemelha a outros tempos, àqueles do Zé do Telhado.

    Naquele tempo eram condenados ao desterro hoje são promovidos a ... e ocupam altos cargos na nação.

    Amo o meu país e amo a liberdade e estou certo que quem nos governa preocupa-se com isso.

    ResponderEliminar
  11. Que façam o que quiserem, mas os que ainda, ainda, por aqui andamos, que façam como nos bancos, que todos pagámos, que nos mandem embora, com boas indemnizações e reformas antecipadas. Agora não nos quererem e sermos nós o suporte da coisa e eles a saberem, que vai catar macacos

    ResponderEliminar
  12. Afinal o nossso estatuto está a ser alterado aos pouquinhos, com provimentos, aditamentos/supressões avulsas..
    Onde está a constitucionalidade disto?! - Está tudo legitimado nas competências dos órgãos de gestão através dos regulamentozinhos das comarcas?-
    Onde estiveram e estão acções sindicais? Elas não saem dos gabinetes de Lisboa.
    Como é que sabem o que se passa nos Tribunais, esqueceram-se do que foi decidido em Coimbra, acção sindical de proximidade!!!?

    Desde que aconteceu a reforma judiciária - burguesa para algumas classes - vale tudo, são administradores a delegar em secretários - alguns moços de recados - estes a delegar em escrivães de direito, adjuntos, auxiliares e até técnicos de arquivo e assistentes operacionais que desempenham as funções acometidas aos Oficiais de Justiça - Os órgãos sindicais assobiam para o lado, de Lisboa até aos delegados locais.
    Os secretários gerais que se desloquem aos serviços e peçam às televisões que os acompanhem para o cidadão se inteirar da vergonha que se passa nos tribunais e condições humanas e físicas de trabalho... Como dizia agora vale tudo...Se faltar a funcionária da limpeza, toca a dar um provimento pro OJ limpar as sanitas, já faltou mais...
    Não alinho com greves a brincar! Dos fracos não reza a história.


    ResponderEliminar
  13. Os sindicatos só têm que ir ter com os jornalistas certos. Se não sabem quais são, que se informem, não e difícil descobri-los.
    Depois denunciar toda a situação em que se encontram os tribunais e, com mais gravidade os DIAPs e as secções de violência doméstica, com processos de corrupção e outros com atrazos por falta de funcionários
    Ao mesmo tempo, melhor, uns diasitos antes fazem um ultimato a tutela e depois parte-se para a luta a sério, com greve por período longo.
    A ver se as coisas não se resolviam, resolviam, resolviam.

    ResponderEliminar
  14. A dita reforma silenciosa já entrou em vigor e está a dar mostras disso, no entanto, parecem-me que os vários autores se encontram desarticulados.

    ResponderEliminar
  15. A dita reforma silenciosa já entrou em vigor e está a dar mostras disso, no entanto, parece-me que os vários autores se encontram desarticulados.

    ResponderEliminar
  16. Dizia assim a Senhora Ministra da Justiça:

    Lusa 29 Setembro, 2022, 10:31
    "A revisão do estatuto profissional para a carreira dos oficiais de justiça “está em marcha”, assegurou esta quarta-feira a ministra da Justiça, sem, contudo, se querer comprometer com uma data para a apresentação do documento"

    Acontece que em 17/03/2022, o Senhor Primeiro Ministro António Costa, no Parlamento disse que o processo de revisão dos Estatutos dos Oficiais de Justiça " já tinha entrado em circuito legislativo"!

    Podemos então concluir que a fase seguinte ao circuito legislativo é marchar, marchar, marchar?!...







    ResponderEliminar
  17. Com as últimas alterações á LOSJ, os srs. Magistrados passaram a ser renumerados, e muito bem, pela acumulação de funções.
    Os quadros complementares viram-se reforçados nos últimos anos.

    Muito gostaria de ver os sindicatos questionarem o valor dispendido com as acumulações e os pagamentos no âmbito dos quadros complementares e de recuperação processual, assim como as ajudas de custo pagas.

    Haja coragem para pedir ao CSM e á PGR esse valor que devia ser público.

    Então perceberemos porque é que não há recursos financeiros para o reforço de funcionários ou mesmo de magistrados.

    Fico a aguardar a desenvoltura dos sindicatos.

    ResponderEliminar
  18. "Ao Presidente..."??? compete, num órgão colegial, tipo "direção nacional" ou "secretariado", ou seja, "democracia" dar a conhecer as medidas a tomar, em representatividade ...! Desculpe, está a falar do "sindicato unipessoal", certo?! Assim faz sentido. A estratégia de sobrevivência populista do soj em nada beneficia a classe. Enfim...

    ResponderEliminar
  19. E por especialização e por acumulação de funções e os subsídios €€€ e ainda se queixam, muita gente teve aumentos até naquela austeridade só pra nós...

    ResponderEliminar
  20. E o subsídio de renda de casa 14 meses por ano!!!!
    Isento de IRS!...

    ResponderEliminar
  21. INACREDITÁVEL

    Ao que parece circulam notícias de que a sra ex Secretária de Estado Alexandra Reis terá saido com meio milhão de euros porque terá saído a notícia sobre a auditoria feira e perceberam que os aviões comprados pela TAP, supostamente mais económicos por consumirem menos combustível, terão custado milhares de milhões de dólares, cerca de vinte porcento superior ao valor de mercado.
    O jornalista José Ferreira da SIC levantou a questão .

    São milhares de milhões de euros a pagar nos próximos anos e não vai haver quem compre a TAP com um encargo deste montante.

    Já se fala que vai ser necessário um novo esforço do Estado a não ser que passe a dar lucro.

    Vamos ver o que 2023 nos trará.

    Espero que tudo isto seja mentira.

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

Ministério da Justiça já tem novos mapas de pessoal da 1ª instância

A carreira dos Oficiais de Justiça é a terceira mais envelhecida da Administração Pública

Mais um acordo assinado e foi “uma grande vitória” e foi “o que se conseguiu”, diz o SFJ