As iniciativas espontâneas dos Oficiais de Justiça
Temos vindo a abordar os acontecimentos espontâneos de alguns Oficiais de Justiça no sentido de prosseguir a luta a que os sindicatos parecem ter dado dispensa durante este período eleitoral.
Abordamos a espontaneidade das iniciativas, designadamente, as poucas que hoje à tarde ocorrerão em forma de concentração de piquete de greve à porta de alguns tribunais, como em Braga, cujo anúncio já a comunicação social local divulgou mesmo antes de acontecer.
No jornal “O Minho”, lê-se que os Oficiais de Justiça “concentram-se esta segunda-feira, pelas 14:00, em frente à entrada do edifício, em protesto por melhores condições de trabalho e de carreira que se enquadra numa greve em curso, que abrange o período entre as 13:30 e as 24:00", protesto que "coincide com o último dia de entrega das listas dos vários partidos às eleições legislativas".
Também noutros tribunais, com ou sem concentração à porta, o último dia da entrega das listas de candidatos às eleições será objeto de greve de Oficiais de Justiça, por sua própria iniciativa e não por incentivo dos sindicatos, especialmente por parte do Sindicato dos Funcionários Judiciais (SFJ) que deu instruções a nível nacional para se esperar por todas as listas para lhes entregar um folheto que elaborou e que diz ser um “memorando com as reivindicações da classe, nomeadamente a falta de condições nos tribunais”.
Abordamos também a iniciativa de alguns Oficiais de Justiça de Penafiel que prepararam uma missiva para ser enviada a várias entidades e personalidades, missiva essa que rapidamente foi acolhida por muitos Oficiais de Justiça em todo o país que quiseram aderir à iniciativa, transformando a missiva simples num abaixo-assinado que ainda por aí corre, sendo intenção dos organizadores da iniciativa remeter a missiva e as assinaturas aos destinatários elencados – e outros que entretanto foram sendo sugeridos, mesmo a nível europeu – já esta semana.
Claro que estes mesmos Oficiais de Justiça não se mostram descansados e já cozinham (ou têm mesmo já cozinhada) uma nova iniciativa que vai ser divulgada ainda esta semana.
Tanto a iniciativa da missiva como a nova iniciativa a apresentar, foi e será apresentada aos sindicatos, porque, apesar de nascer e se concretizar à margem da organização sindical, carecem do apoio da máquina sindical montada para obter maior sucesso.
Relativamente à missiva, o apoio prático dos sindicatos não existiu, mas isso não invalidou a prossecução dos objetivos traçados que foram alcançados e com significativo êxito.
Estas iniciativas dos Oficiais de Justiça surgem pelo óbvio espanto de verem a sua carreira estagnada e veem as fantásticas iniciativas de outros grupos profissionais, como o dos polícias que, sem sindicatos iniciaram um protesto tão firme e constante que os sindicatos – e são onze – acabaram por aderir à iniciativa dos polícias e dos guardas da GNR e do Corpo da Guarda Prisional.
Também os Bombeiros já anunciaram uma concentração no Terreiro do Paço em Lisboa para 03FEV, sem sindicatos, apenas com troca de mensagens nas redes sociais, tal como sucedeu com os polícias e guardas e tal como sucedeu e está a suceder com os Oficiais de Justiça, a organizarem-se espontaneamente nas redes sociais, desta vez via WhatsApp, contribuindo, com muito gosto, o nosso Grupo Nacional de Oficiais de Justiça no WhatsApp para esse desígnio.

Esta forma de organização espontânea dos trabalhadores na realização de qualquer ação de luta não é nada de novo. Há mesmo correntes político-filosóficas nascidas no século XIX que valorizam este tipo de ações como as mais puras e a ideais para as conquistas dos trabalhadores. Portanto, não é uma novidade das redes sociais, embora estas confiram hoje à espontaneidade dos trabalhadores uma velocidade de propagação nunca alcançada antes, podendo transformar quase qualquer coisa como algo viral como se vem dizendo.
Estas ações espontâneas dos trabalhadores beneficiam, pois, de uma maior velocidade de propagação, pelos diferentes e informais meios utilizados, ao mesmo tempo que são mais camaleónicas, adaptando-se com facilidade e rapidez às circunstâncias e às mudanças que vão ocorrendo, com a leveza de uma organização simples, coletiva, mas especialmente participativa.
Essa participação aberta a todos, todos podendo decidir e mudar e sugerir, aporta, obviamente, uma inclusão de todos os trabalhadores, sem necessidade de formalismos de filiações ou eleições. Todos se sentem parte do acontecimento e todos podem expressar diretamente as suas motivações e insatisfações.
Sem dúvida alguma que este modelo participativo e de iniciativa espontânea é o ideal na mobilização dos trabalhadores e é a isso que estamos a assistir atualmente, vendo como, depois, os sindicatos aderem a essas iniciativas não querendo ficar à margem. Isso mesmo aconteceu com os onze sindicatos dos polícias e guardas que rapidamente concluíram que não podiam ficar de fora e que tinham de ter – todos eles – a mesma união que os polícias demonstravam na rua.
Os sindicatos dos Oficiais de Justiça não estão nada habituados a que os Oficiais de Justiça possam agir espontaneamente. Em relação à iniciativa do envio da missiva, o SFJ, contactado, manifestou apoio, mas não difundiu tal apoio a nível nacional, a ninguém, o que resultou na recusa de muitos representantes desse sindicato em colaborara na recolha de assinaturas, alegando precisamente que o SFJ não apoiava a iniciativa. Já o SOJ, por sua vez, disse que aceitaria apoiar, mas para isso queria ver alterados alguns aspetos da missiva co os quais não concordava.
Evidentemente que, com um apoio de mera declaração ou de um pedido de alteração, a iniciativa já era um comboio em marcha que rapidamente se tornou num TGV, não dando tempo a que as máquinas de tração sindicais, que rolam em bitola ibérica, se apercebessem de que não era uma ideia para o futuro, mas algo que já estava a acontecer.
A nova iniciativa que há de ser anunciada esta semana também já está delineada para acontecer independentemente dos sindicatos apoiarem ou não a iniciativa, e de conseguirem, ou não, apanhar o comboio que acaba de partir.
Evidentemente que os trabalhadores precisam de uma estrutura organizada de apoio para melhor poderem concretizar os seus intentos e para que as ações possam ser mais eficazes. E claro, o apoio com meios que não estão ao alcance dos Oficiais de Justiça isolados é também algo de grande valor, designadamente ao nível dos recursos logísticos e financeiros. Por exemplo: alugar um autocarro para transporte de trabalhadores é algo que os sindicatos podem fazer com maior facilidade, tal como disponibilizar bandeiras, faixas e contactos na comunicação social.
Em síntese, as iniciativas espontâneas à margem dos sindicatos, sem o apoio destes, podem tornar-se irrelevantes. É ótimo que as iniciativas surjam do seio dos próprios trabalhadores, mas é imprescindível que estes sejam posteriormente apoiados, mas verdadeiramente apoiados, pelos sindicatos. E esta necessidade que corresponde a esta nova realidade é algo que não pode passar ao lado dos sindicatos que representam os Oficiais de Justiça que, necessariamente, têm de se adaptar a esta nova, embora velha, realidade, não a deixando escapar, sob pena de um perdimento que pode ser irreversível.

Não concordo com o senhor bloguista. Se os trabalhadores tomaram a iniciativa é porque não tiveram sucessivamente iniciativas dos sindicatos desperdiçando, inclusivamente, ótimas oportunidades para o efeito. Eles podem chegar às entidades pretendidas sem o apoio dessas entidades.
ResponderEliminarSem o apoio dos sindicatos, quero eu dizer.
ResponderEliminarOs sindicatos fazem parte do sistema. Existem para controlar o descontentamento dos trabalhadores, sendo aceites por estes pela sua narrativa que é muito bonita na defesa de quem trabalha mas na pratica tem as suas balizas e linhas vermelhas tracadas pelos governos, patronato e partidos políticos. Quando acontecem iniciativas espontâneas é porque a corda esticou demais e a vida de quem trabalha já se tornou insuportável demais.
ResponderEliminarAssim lá vem os sindicatos a correr atrás do prejuízo.
Há muito que o Marça deixou de ter legitimidaded para dirigir o SFJ.
ResponderEliminarA CGTP que fique atenta porque parece ser ela que manda.
Historicamente, era assim e parece que ainda querem dar continuidade.
ResponderEliminarNo Estado Novo, a atividade sindical estava estrategicamente controlada.
Na década de setenta, após a revolução, os sindicatos foram tomados pelo poder politico instalado, pela esquerda que supostamente defendia o proletariado.
Sucede que essa defesa, a dos trabalhadores, não estava desprendida da ideologia que queriam ver implementada e a atividade sindical foi instrumentalizada pelos partidos mais à esquerda, nomeadamente pelo PC.
Essa instrumentalização serviu para acicatar os trabalhadores quando os governos eram mais à direita e para refreio quando se voltavam para a esquerda.
E mesmo com os partidos ditos mais à esquerda assumiam funções, as reivindicações sindicais serviam apenas para servir de justificação a medidas do governo ou então para acalentar e amenizar o descontentamento.
Hoje as coisas vão mudando um pouco, mas deviam mudar muito mais.
Nos processos de revisão das carreiras, as entidades que representam os trabalhadores são chamadas a pronunciar-se, tenham elas muita ou pouca representatividade (filiados).
Ora, na maioria das vezes não é a vontade da maioria que ai é expressada mas apenas e só a vontade formada no seio do sindicato - e é normal que seja assim - e que pode não coincidir com a maioria dos funcionários que integram a carreira.
Assim, nos processo de negociação do novo estatuto ou de revisão do atual, a nossa defesa não deveria estar reservada aos representantes sindicais que, por vezes, se caracterizam por uma incompetência gritante, entendo que deveríamos ser todos chamados a nos pronunciar sobre o documento.
As missivas, qualquer que sejam elas, não despoletam qualquer iniciativa ou precipitam qualquer decisão, e a mor das vezes têm o destino fatídico do arquivamento tácito.
A nossa luta há muito tempo que está perdida, pois depende única e exclusivamente da vontade política e esta não existe nas bandeiras que agora se levantam em campanha eleitoral.
Quando se premeia a incompetência política dando palco a intervenientes que nos maltrataram como foi o caso do evento organizado pelo SOJ que contou com pessoas que nos faltaram à palavra ao compromisso dado fica tudo esclarecido.
Quando, por outro lado, o SFJ se envolve num enredo de promiscuidade partidária em que os seus membros parecem dedicar mais tempo à militância partidária que à atividade sindical estamos conversados.
Não há vergonha, não há valores, só promiscuidade ...
Parabéns aos meus conterrâneos que por estes dias tentaram bulir com o assunto sendo certo que o nosso fatídico destino está há muito tempo traçado - somos desconsiderados, é como se não existíssemos.
Eu vou-me preparando para abandonar o barco, tenho fé que tal aconteça até ao próximo Verão, vamos ver ...
Não concorda? Claro que concorda! Estamos a dizer a mesma coisa. Atente nos seguintes extratos do artigo:
ResponderEliminar(1)-«a luta a que os sindicatos parecem ter dado dispensa durante este período eleitoral»
(2)-«carecem do apoio da máquina sindical montada para obter maior sucesso»
O que se diz é que houve (há) falta de iniciativa dos sindicatos e que estes são necessários para incrementar, isto é, para ampliar o sucesso, mas sem ser imprescindível tal apoio, como se explica no artigo, desde logo com a imagem do comboio TGV em andamento e também está expresso no seguinte extrato:
(3)- «Relativamente à missiva, o apoio prático dos sindicatos não existiu, mas isso não invalidou a prossecução dos objetivos traçados que foram alcançados e com significativo êxito.»
A nossa luta tem que começar a fazer-se fora da esfera dos sindicatos.
ResponderEliminarNestor momento adiro com mais facilidade a uma iniciativa individual ou a um movimento de um grupo de colegas do que às iniciativas dos sindicatos que, na verdade, a única coisa que sabem fazer é marcar greves.
Greves essas que chegam a ser tantas e todas ao mesmo tempo que se tornam confusas e inúteis.
Se não fosse aqui o blogue a elucidar-nos e a elencar todas as greves em curso, ninguém se entendia nem sabia quais as greves que estão a decorrer.
Greves, nem mais uma! Para quê?
ResponderEliminarA atual direção do StJ pede greves para se autoligitimarem, penso eu, em nosso prejuizo.
ResponderEliminarEste mês as mais variadas profissões da função pública começam a receber o suplemento dos 20 por cento.
ResponderEliminarA única classe a recusar os famosos 20 por cento foi a nossa.
Com a falsa teoria do ninguém fica para trás.
Numa coisa tinham razão ninguém fica para trás....ficam todos para trás...e agora???
Interrogatório dos arguidos da Madeira adiado para amanhã devido a greve dos oficiais de justiça. Então? A greve adianta ou não?
ResponderEliminarPara aqueles que são contra o uso da greve o que eu digo é que o que é preciso é coragem.
Parabens aos colegas que fizeram greve e tiveram coragem para nao vacilar.
Pork ninguém fala disso na comunicação social?
ResponderEliminarBoa tarde,
ResponderEliminarMais uma vez tenho de lhe pedir para repor a verdade.
Quanto a missiva apresentada pelo Colega de Penafiel, a mesma teve uma palavra de apreço e um apelo feito pelo SFJ, pela pessoa do seu presidente.
Em contacto com o colega que teve a iniciativa, eu própria, disponibilizei-me para o ajudar no que precisasse.
De imediato foi dito nos Tribunais para subscreverem a missiva que corria na internet.
Agora, a não ser que seja por má fé intencional, gostaria de pedir-lhe que, sempre que tiver duvidas ou informações incompletas, solicite as informações completas ao SFJ que estará sempre disponível para as fornecer, evitando assim fazer comentários que apenas servem para criar a desunião da nossa classe.
Gabriela Mota
Boa tarde Gabriela! Mais uma vez tenho de lhe pedir para repor a verdade, aquela verdade que diz respeito à realidade no seu todo e não aquela verdade que diz respeito a dois ou três ou que lhe diz respeito a si.
ResponderEliminarComo se diz no texto, houve uma declaração de apoio e poderá ter havido essas diligências que diz que sucederam, no entanto, o país é algo muito mais vasto que as comarcas de Lisboa e não houve nenhuma comunicação ou instrução a nível nacional, o que fez com que delegados regionais e locais se negassem a colaborar com a iniciativa, alegando, precisamente, que o tal apoio não lhes foi comunicado. Em alguns locais - e detemos essa informação até com nomes das pessoas representantes do SFJ - foi expressamente dito que nada iriam fazer pela iniciativa porque até criaria um precendente se o fizessem.
Agora, a não ser que seja por má fé intencional, gostaria de pedir-lhe que, sempre que tiver duvidas ou informações incompletas, nos solicite as informações completas que sempre estamos disponíveis para as fornecer, evitando assim fazer comentários que apenas servem para criar a desunião da classe.
Ninguém fala mesmo em tal greve, apenas em documentos que falta consultar e em lapsos do MP que o Juiz detetou, mas, independente de qual seja o arguido, já começa a ser hábito e são demasiados dias em detenção.
ResponderEliminarParece que desta vez, pela conversa de advogado na tv, alguém vai recorrer ao T.C. para de vez, a questāo das 48 h. ser melhor esclarecida e nāo signifiquem a detenção por uma semana.
Cada "tiro cada galho"!
ResponderEliminar🤣
Alguém se preocupa com o que ganham os provisórios? Ou é só o famoso: vão-se embora enquanto podem, etc e tal, e outras misérias.
ResponderEliminarO que é que vocês querem fazer da profissão? Querem reformar-se sem mudar o que está mal e os outros que se lixem? Acham que isto é só para malta que entre sem concurso, para familiares e conhecidos?
Ainda por cima, dizem, são licenciados, não é? Tal e qual os vossos filhos e netos. Gostava de saber se falam assim deles.
Se fosse a CGTP a mandar no SFJ, outro galo cantaria!
ResponderEliminarIsto parece mais um sindicato tipo UGT, isso sim!
Porque é que os lideres sindicais não se deslocam aos tribunais onde há diligências de pessoas mediáticas, apoiar e incentivar às greves a essas audiências? Convicando a imprensa?
ResponderEliminarPorque será que não aparecem nessas situações?
Fantochada