Atualidade: Quando a lei é do mais forte, a democracia é dos fracos
«A fotografia explodiu nas redes sociais. Nicolás Maduro, sentado, vendado, auscultadores nos ouvidos, colete à prova de bala – como um animal capturado. A imagem que os Estados Unidos decidiram mostrar ao mundo exibiu um homem completamente desarmado, controlado, reduzido a prisioneiro dentro de um avião militar americano. O uniforme militar tinha desaparecido. O poder tinha desaparecido. Restava apenas um homem à mercê de quem o capturou. Aquela fotografia não era prova de justiça. Era um troféu de guerra. Era prova de força bruta.
Quando comandos americanos invadem um país soberano, arrancam o seu líder do quarto e o transportam para Miami, enquanto divulgam imagens que humilham, não estamos perante aplicação da lei. Estamos perante a lei do mais forte.
O direito internacional, que deveria proteger as nações pequenas contra as maiores, revelou-se o que sempre foi: um conjunto de regras que os poderosos invocam quando lhes convém e violam quando lhes apetece. Maduro pode ter sido um ditador, mas a sua captura violou o princípio da soberania. E quando a soberania se esgota, o direito internacional desmorona-se para todos.
Mas este problema não é apenas internacional. A mesma lógica atravessa fronteiras e entra-nos pela porta de casa. Internacionalmente, a lei do mais forte revela-se quando as potências ignoram tratados. Nacionalmente, revela-se quando os cidadãos, perante a ineficácia ou morosidade dos tribunais, substituem o Estado por quem promete resolver o que a lei não resolve.
Em maio de 2025, chegou a Portugal uma empresa espanhola Anti Okupas. Uniformes pretos, boinas, ex-polícias contratados. Cobram para expulsar ocupantes ilegais das casas.
Entram, retiram as pessoas à força, mudam fechaduras. Tudo filmado, tudo publicado nas redes sociais como troféu, com a mesma lógica da fotografia de Maduro: mostrar quem manda.
O Ministério Público abriu investigação. Juristas chamaram-lhe um atentado ao Estado de Direito. Mas os clientes continuam a aparecer. Porquê?
Porque, para muitos proprietários, a alternativa é ver a sua casa ocupada e ouvir o Estado dizer: "Espere. Um ano. Talvez mais." Quando o Estado não protege, o mercado aparece para vender proteção. E quem compra não se sente criminoso. Sente-se justificado. Sente-se abandonado. E pior: sente-se certo.
O proprietário que corta a água e a luz à casa que lhe foi ocupada pode ser denunciado. O comerciante que tranca o ladrão até a polícia chegar pode ser investigado por sequestro. Quem reagiu por desespero passa a arguido. Quem iniciou a injustiça veste a pele de vítima. Porque o Estado não estava lá quando devia estar. E, quando aparece, aparece muitas vezes para punir quem se defendeu, não quem ofendeu.
A diferença brutal entre o Capitólio e o Planalto mostra até onde isto pode ir.
Em Washington, em janeiro de 2025, os atacantes do Congresso foram perdoados. Mais de mil e quinhentos. Todos. Trump concedeu clemência geral a todos os condenados e acusados do 6 de janeiro.
No Brasil, no mesmo mês, os atacantes do Planalto foram condenados: trezentos e setenta e um com penas entre 3 e 17 anos e meio de prisão. A mesma cena – multidões a tentar derrubar o resultado de eleições. Desfechos opostos. Não porque a verdade fosse diferente. Porque o poder era outro. A justiça não foi igual para todos. Foi igual a quem mandava.
E se fosse em Portugal? Se amanhã uma turba invadisse o Parlamento, quebrasse janelas, destruísse documentos, agredisse seguranças, o desfecho seria prisão ou perdão? A resposta honesta é desconfortável. Não dependeria de quem vencesse as eleições a seguir? Se quem instigou ganhasse, não se falaria em "manifestação exaltada", reconciliação, perdão? Se perdesse, não se exigiriam penas exemplares?
Não seria isto transformar a democracia numa roleta russa judicial onde o resultado depende de quem segura a arma?
As defesas do Estado de Direito exigem três coisas: independência, celeridade e coragem.
Portugal tem, com todas as imperfeições, juízes independentes. Mas falta-lhe uma coisa essencial: celeridade. E sem celeridade, tudo o resto é teatro.
De que serve um sistema judicial formalmente independente, se a decisão chega quando o crime já prescreveu, a vítima já desistiu, o agressor já fugiu ou o proprietário já perdeu a casa?
Sem tempo, a justiça não é justiça. É arquivo.
A captura de Maduro, os despejos dos Anti Okupas, os perdões de Trump em Washington e as condenações no Brasil são capítulos da mesma história: a substituição lenta, mas constante, do Estado de Direito pela lei do mais forte.
Cada dia que um processo se arrasta, mais um cidadão desiste do tribunal e recorre à força.
Cada porta arrombada por uma empresa privada, cada vídeo de humilhação partilhado como troféu, cada perdão coletivo concedido a quem atacou a própria democracia, é um prego discreto no caixão do Estado de Direito.
A defesa da lei que vale para todos não é uma questão de direita ou de esquerda. É uma questão de civilização.
Ou temos leis que se aplicam a todos, do mais poderoso ao mais frágil, ou temos apenas recomendações que os fortes ignoram quando lhes convém. E nesse mundo, não importa quem ganha as eleições. Importa quem tem os meios para as apagar.
A pergunta não é se Maduro é um ditador, ou se os atacantes do Capitólio são patriotas ou criminosos. A pergunta é se aceitamos viver num mundo onde a justiça depende da força de quem a aplica.
Porque, se aceitarmos, amanhã será mais um líder vendado num avião militar.
Depois de amanhã, será um proprietário à porta de casa, rodeado de homens fardados que não são do Estado.
E, um dia, será qualquer um de nós, à porta de um tribunal fechado, com um papel na mão e nenhuma resposta.
Nesse dia, não haverá lei. Haverá apenas o mais forte. E o mais fraco. Como sempre aconteceu, antes da lei existir. E desta vez, se deixarmos chegar lá, já não haverá ninguém para nos salvar.»

Fonte: reprodução do artigo de opinião assinado por João Massano, bastonário da Ordem dos Advogados, intitulado: "Quando a lei é do mais forte, a democracia é dos fracos" e publicado no Expresso.
Bom dia
ResponderEliminarExcelente análise de uma perigosa realidade em crescendo que o mundo olha sem capacidade alternativa…
ResponderEliminarOpinião bastante confusa me parece.
ResponderEliminarMistura assuntos que nada têm a ver.
Não critica quem, apesar de derrotado nas eleições, assume o poder esquecendo a vontade de quem votou? Esse é o maior facto que, apesar da Lei internacional, legitimará quem pôs fim a tal usurpação, já que na rua os eleitores civis, não conseguiram que o seu voto tivesse valor.É só imaginar isso cá p.ex. nas últimas eleições.Quem ganhou, ficar fora do governo.....
Sobre Portugal ter juízes independentes concordo plenamente.Quanto à falta de celeridade, não concordo, porque muitos processos são terminados anualmente. Mas, a ser verdade, porque não vai o opinante às causas?
A legislação está adequada? Há meios materiais e humanos suficientes? É que Magistrados e Oficiais de Justiça são interligados no trabalho em equipa.Nāo é cada um a trabalhar para o seu lado. Se não houver equilíbrio no número de elementos há quebras. As peças da máquina não funcionam.
Podem ser proferidos muitos despachos e rápido, mas se não houver quem os cumpra, os execute, essa quantidade e rapidez do Magistrado ficam prejudicadas.
Haja mais investimento em mais formação, mais especialização, menos burocracia, maior número de entradas de pessoas e tudo muda. Estarão os governos interessados nisso? Os Oficiais de Justiça sabem há muito que não porque no terreno sofrem há muitos anos, com os mesmos problemas.🐒
Exelente!
ResponderEliminarFalta dizer que sem funcionários também não há justiça célere
Eu como cidadão Venezuelano que sofri na pele o que é ser vítima de ditadores, estou-me lixando para o direito internacional neste caso em concreto.
ResponderEliminarQuero é ser livre e viver dignamente.
ResponderEliminarEstamos a passar rapidamente do tempo das liberdades a mais, que deram em deboche, devaneio, libertinagem edespespeito pela tradição e cultura ancestrais, individualismo incontrolável, egoismo doentio, exposição gratuita e desnecessária aos restantes de sentimentos, emoções e preferências sexuais, para um tempo antigo e também ele, prejudicial à sociedade como já provou anteriormente ser.
É agora a hora dos brutos e ignorantes, novameete. Dos insensíveris, da violência verbal e fisica sobre quem não obedece, concorda e aceita.
Tanta informação e tanta intelectualidade e não conseguimos manter o meio termo, o bom senso, o respeito por todos e todos respeitarem a sociedade a que pertencem. Como chegámos a este ponto?
E agora? Quem nos vai defender desta realidade? As drags que gritam pela defesa de Gaza e ignoram o terror perpetrado pelos Russos?? Os jovens homens completamente afeminados que criámos? As mulheres com modos de motorista de camião, peso a mais e cabelo rapado dos lados?
Perderam-se todas as bússolas que regem e gerem uma sociedade. Uma sociedade com liberdades instituídas não deve ser sinónimo de uma sociedade com libertinagem e desrespeito pelas maiorias que elegem os seus líderes democraticamente. As minorias devem ser respeitadas, obviamente, mas não devem ser quem manda. Simples.
Por outro lado - e estou-me pouco marimbando para opinião de outros - começo a achar que o direito ao voto deveria ser escrutinado prévia e seriamente, nomeadamente, deveria todo e qualquer cidadão ser sujeito a um teste mental e de cultura geral, particularmente sobre história da humanidade e política, para poder ser eleitor. A ignorância de uns não pode valer o mesmo na urna de voto do que os restantes, sob pena de vermos extremistas tomarem novamente o poder, como está a acontecer. Não é ao calhas que Trump disse várias vezes que adora os pouco instruídos...
Sabem lá o que é o Direito Internacional, essa coisa que inexiste!!! Bom, bom, será viver sob o jugo soviético ou do Hamas....
ResponderEliminarOra aí está!
ResponderEliminarMas pelos vistos está tudo bem.
Escravos gostam
Sem dúvida. Há casos em que o direito internacional é merda.
ResponderEliminarE os direitos humanos onde ficam? Para quem sofre na pele nesses países onde é só ditadores???
Em que ficamos??
Contra os ditadores que me roubaram de 2001 a 2005
ResponderEliminarEstou de baixa por igual período.
Até que reponham o produto do ROUBO
Então os pedofilos dos partidos anti ventura já firambl expulsos dos respectivos partidos??
ResponderEliminarPois é.
Cabro-----'
Amigo, aqui é só cegos.
ResponderEliminarSó vêm o que lhes convem.
Direitos humanos não convém pelos vistos.
Funcionários?
ResponderEliminarEheh
Putos novos ganhem vínculo e ponham-se fora disto que não é vida
Força!
ResponderEliminarE caga mesmo para as críticas.
Ao menos tens coragem de dizer o que a maioria faz e não diz para não ser criticado.
Certeiro!
ResponderEliminarE direitos humanos pá?
ResponderEliminarPorque não fiste viver para a Venezuela? Ou porque não vai experimentar a Russia?
Eheh
ResponderEliminarPedofilos no ps e psd não há nem junca houve
Nem corruptos
Filhos do car
Melhor não diria
ResponderEliminarE vão dois
ResponderEliminarPedofilos era castração e mais nada!
ResponderEliminarA este blogue
ResponderEliminarObrigado pelo trabalho desenvolvido
E apelo a fazerem um artigo que nem a imprensa fez
Artigo sobre o que deveria prevalecer
Direito internacional
Ou
Direitos humanos?
Façam isso e mandem para tida a imprensa!!!
👍
ResponderEliminarJamais esquecerei até morrer!!
ResponderEliminarLutarei à minha maneira já que ninguém luta
Isso não é para qualquer uma imprensa.
ResponderEliminarImprensa livre e imparcial.
Gostava de os ver na Venezuela que falam.
Ou Rússia.
Ou nos sauditas
Ou irão
Ou África
Lamento informar o nosso Bloger... Mas não é essa a Justiça que já se vive em Portugal ?!? E infelizmente não é cega, a balança pende sempre para o mesmo, é muito TRISTE!
ResponderEliminarQual justiça?
ResponderEliminarA do direito internacional?
A dos direitos humanos?
Qual?
A dos ricos?
A dos pobres?
Qual?
O direito internacional existe, não é é cumprido. Por quem? Principalmente, pela Federação Russa e pelos EUA. Ainda a Rússia, ainda sabemos que o regime nunca foi democrático. Mas, vergonhosa é a atitude dos EUA, criadora do melhor funcionamento democrático. Mas, democráticas sempre foram apenas as suas instituições, que estão em perigo de deixarem de o ser, devido à atitude da atual administração. Já a política externa foi sempre, de agressão, por vezes, com a cumplicidade de alguns países europeus. Quando Trump tomar posse dos Açores, já que fica no hemisfério ocidental deste planeta e aplicar sanções económicas, obrigando quase todo o mundo a fazer o mesmo; quando e por este motivo, pouco tivermos para comer, manifestamos contra quem? Contra o nosso governo? Mas que podia ele fazer, face ao poderio do ocupante? Os regimes de Cuba, da Venezuela e do Irão, que os EUA nunca perdoaram pelo fato destes países estarem ligados à Rússia, são sofríveis. Mas, muito do sofrimento das populações desses países é motivado pela proibição de haver relações económicas com o resto do Mundo. O Irão foi invadido pelo ingleses, soviéticos e franceses, em 1941. Seguiram-se vários golpes de estado e mudanças de poder,, provocados pelos mesmos de sempre e pelo mesmo motivo-o petróleo.E as populações a sofrerem.
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12/01 - 13:11:
ResponderEliminarNão vale a pena ficar enojada pois que são meia dúzia de comentários desses, num número elevado de comentadores que serão colegas nossos.
Também estou otimista como os venezuelanos que vamos ouvindo, apesar de alguns meios de c.social continuarem a dar mais realce àquilo que menos interessa e manterem posição influenciadora anti-Trump. A mim não influenciaram nunca e já desde o primeiro mandato dele.
Sabemos que após intervenção dos EUA, presos políticos estāo a ser libertados e pouco mais.O regime ainda não terminou e receia a entrada dos muitos jornalistas, também portugueses, que se encontram na fronteira com a Colômbia.Não se compreende este impedimento.🐒