A Voz dos Oficiais de Justiça: “Clima de medo, pressão e desgaste contínuo”
Às quartas-feiras – salvo se a atualidade impuser outras divulgações – é dia da habitual rubrica: “A Voz dos Oficiais de Justiça”, contendo artigos escritos pelos nossos leitores e que nos são enviados – para o nosso endereço de e-mail geral: OJ@sapo.pt – para aqui publicar neste dia da semana. Todos são bem-vindos, todos têm espaço para a sua voz.
Hoje, vamos reproduzir o artigo enviado por um grupo de Oficiais
de Justiça, que prefere manter reservada a sua identificação, onde é relatado o
ambiente de medo e degradação do serviço no tribunal onde exercem funções, cuja
denúncia e discussão pública pretendem espoletar.
Daquilo que
temos conhecimento, este relato não corresponde a um caso isolado, ajustando-se
a situações vividas em diversos locais.
E dizem assim:
«Dirigimo-nos a
vós enquanto grupo de Oficiais de Justiça que, por receio de represálias, opta
pelo anonimato – um facto que, por si só, já ilustra o ambiente atualmente
vivido num tribunal.
Nos últimos
tempos, tem-se instalado um clima de medo, pressão e desgaste contínuo, marcado
por práticas reiteradas que diversos profissionais identificam como assédio
moral e perseguição no local de trabalho. Estas situações têm sido alvo de
participações e queixas, sem que daí tenham resultado alterações efetivas.
Paralelamente,
assiste-se a uma rotatividade anormal de funcionários, com mudanças sucessivas,
saídas e desestruturação de equipas. Esta instabilidade não é neutra: está a
comprometer seriamente a organização do serviço, a tramitação processual e, em
última análise, a resposta da justiça ao cidadão.
Mais grave ainda
é a perceção generalizada de que estas práticas não ocorrem à margem das
estruturas de direção e coordenação, mas antes dentro de um contexto onde quem
deveria garantir equilíbrio e legalidade acaba, direta ou indiretamente, por
contribuir para a sua perpetuação.
O resultado é um
ambiente profissional degradado, onde o cansaço, a desmotivação e o receio
substituem o normal exercício de funções. Trabalha-se sob pressão constante,
com impacto evidente na saúde psicológica dos funcionários e na qualidade do
serviço público prestado.
Apesar de tudo
isto, o silêncio tem prevalecido – não por inexistência de problemas, mas por
falta de consequências.
É precisamente
por isso que consideramos essencial tornar esta realidade pública e trazê-la
para discussão entre colegas. Só a exposição e o debate poderão quebrar este
ciclo e gerar a pressão necessária para que algo, finalmente, mude.
Ignorar esta
situação é permitir que ela continue.
Com os melhores cumprimentos / Um grupo de Oficiais de Justiça.»
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