De A a Z, como perder a Liberdade

      «Sou mãe de duas crianças, talvez por isso obrigo-me a olhar para o futuro com mais atenção do que por vezes me é confortável. Todos os anos em abril lhes falo de liberdade, do que foi conquistado, do que mudou e do que nunca mais queremos repetir. Quero manter vivo neles o quanto o meu pai sonhou, acreditou e lutou para hoje podermos fazer e dizer o que nos vai no coração.

      Este ano, porém, não falarei de liberdades conquistadas, chegou o momento em que tenho de lhes falar de outra coisa. Uma coisa realmente importante. Falarei de como se perde a liberdade. Terei de lhes explicar que não se perde de repente, que não haverá avisos e que não haverá um dia em que tudo muda. Terão de ser vigilantes, pois a liberdade perde-se devagar, com silêncios, com decisões e escolhas que parecem banais.

      E então pensei: como seria o ABC sobre perder a liberdade? Como seria se o colocasse num manual? Provavelmente seria assim:

      “O ABC de como perder a liberdade”

      A - Acredita que isso nunca te vai acontecer

Aqui não. Agora não. Isso é coisa de outros.

      B - Banaliza tudo

Factos, opiniões, mentiras. Tudo ao mesmo nível, nada pesa, nada se confirma.

      C - Cansa-te de pensar

Reagir é mais rápido. Dá menos trabalho.

      D - Deixa de dizer o que pensas

Não vale a pena. Vai dar chatice.

      E - Encaixa

Discordar cansa. Pertencer é mais fácil.

      F - Faz de conta que não é contigo

Há sempre alguém mais responsável ou que se preocupa mais.

      G - Gosta, partilha, comenta

E chama a isso participação ativa.

      H - Habitua-te

Ao ruído. À pressão. Ao ódio constante.

      I - Ignora os sinais

Nada mudou assim tanto.

      J - Justifica tudo

“Também não é assim tão grave.”

      L - Limita-te ao que já concordas

O resto incomoda.

      M - Mede tudo pela reação dos outros

Se agrada a muitos é porque está certo.

      N - Normaliza

Com o tempo, tudo parece aceitável.

      O - Opina sem saber

Mas sempre com muita certeza.

      P - Prefere conforto à verdade

A verdade exige mais de ti

      Q - Questiona menos

Não compensa e podes não ser aceite.

      R - Repete

Parece pensamento.

      S - Silencia-te

É mais seguro.

      T - Torna tudo superficial

Nada merece aprofundamento.

      U - Usa o humor para desvalorizar

Assim nada é sério.

      V - Vive para não incomodar

Liberdade com limites invisíveis.

      X - “Xinga” quem discorda

Substitui argumento por ataque, assim enervas e fazes-te ouvir.

      Z - Zero reação

      Assim, sem drama, sem ruturas, sem um momento claro em que tudo mudou.Uma sucessão de pequenas cedências, quase impercetíveis e a liberdade á não é bem aquilo que era. Não foi tirada à força, foi sendo entregue, esquecida, deixada para trás.

      O mais inquietante é que quando finalmente se nota, já ninguém sabe dizer o que mudou, onde começou, nem quando deixou de ser defendida.

      Celebramos Abril todos os anos, mas é urgente deixar de celebrar o passado para reconhecer o presente e assim garantir que a liberdade fará parte do futuro das minhas, das nossas crianças.

      Porque a liberdade não se perde de uma vez. Entrega-se assim, letra a letra.»


      Fonte: reprodução do artigo intitulado “O ABC de como perder a liberdade”, de Ana Azevedo, publicado em “Esquerda.Net”.

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