Os deuses devem estar loucos
Sim, o título do artigo de hoje corresponde ao título de um antigo filme dos anos 80 do século passado. O filme ficciona um acontecimento com uma tribo isolada da civilização que um dia vê passar um pequeno avião no céu, para eles uma divindade voadora, do qual cai uma garrafa de Coca-cola, coisa desconhecida que consideram divina e que acaba por alterar o sossego da tribo.
Escolhemos este
mesmo título pela semelhança do tema de hoje. Se daquela divindade voadora chegou
àquele povo o objeto divino, da nossa Assembleia da República chegou-nos ontem,
no Diário da República, uma Resolução votada pela maioria dos deputados que
denota perfeitamente a sua inutilidade pela falta de compreensão daquelas “divindades”
lá de cima, da realidade do mundo da Justiça cá de baixo.
A Assembleia da
República aprovou, no passado 10 de abril, uma Resolução na qual pede ao
Governo que assegure o funcionamento dos tribunais e dos serviços do Ministério
Público de uma, e só uma, das 23 comarcas do país.
A Resolução da
Assembleia da República é a 87/2026, de 27 de abril, ontem publicada em Diário
da República.
Como é sabido, a
Resolução é uma simples recomendação ao Governo e este não está obrigado a nada,
pelo que pedir para que o Governo resolva os problemas daquela comarca ou de
outra qualquer, ou de todas, é perfeitamente indiferente.
O primeiro
número da Resolução impetra o Governo a que:
«Proceda, com
carácter de urgência, ao levantamento exaustivo das necessidades de magistrados
judiciais, magistrados do Ministério Público, oficiais de justiça e demais
trabalhadores judiciais na comarca de Portalegre, tornando públicos os
respetivos resultados.»
Ou seja, para
começar, um “levantamento exaustivo”, talvez com a constituição de um grupo de
trabalho, a realização de algumas reuniões técnicas para a elaboração de um
relatório, que, claro, deve ser discreto e politicamente correto porque é para
ser tornado público.
E depois do relatório
o que vai fazer o Governo? Nada! De acordo com os deputados que constituem esta
Assembleia da República, o Governo deveria promover, “junto do Conselho
Superior da Magistratura e do Conselho Superior do Ministério Público e com
respeito pela autonomia dos órgãos constitucional e legalmente competentes”, as
diligências necessárias à resolução dos problemas que se hão de identificar,
mas que já se conhecem, tais como:
«.a) As
diligências adequadas ao preenchimento dos lugares atualmente vagos na Comarca
de Portalegre, mediante a criação das condições administrativas e orçamentais
necessárias e
.b) A avaliação
e efetivação da necessidade de reforço temporário dos meios humanos da Comarca
de Portalegre, sempre que se verifiquem níveis de pendência ou atrasos
superiores aos indicadores nacionais mais recentes.»
Vejam bem: preenchimento
de lugares de magistrados judiciais e do Ministério Público, mais nada. Parece
que não faz falta mais ninguém.
Curiosamente, os
deputados da Assembleia da República já adivinham as conclusões do tal levantamento
exaustivo e delas não vai constar a falta de nenhum Oficial de Justiça, porque,
naquela Comarca devem abundar e até sobrar.
Para além da
falta de recursos humanos apenas nas magistraturas, os deputados também querem
que o Governo “avalie, com prioridade, a adequação da atual organização
judiciária da Comarca de Portalegre, designadamente quanto à existência ou
necessidade de resposta especializada nas áreas de família e menores e de juízo
de instrução criminal, promovendo, se necessário, as respetivas iniciativas
legislativas, ao abrigo do artigo 165.º da Constituição, ou administrativas
legalmente previstas.” Ou seja, que se leve a cabo uma mini-reorganização
judiciária naquelas bandas.
Depois deverá
ser definido “um plano calendarizado para a reabilitação e normalização das
instalações judiciais na Comarca de Portalegre, assegurando condições condignas
de funcionamento e de atendimento ao público, incluindo intervenção nas
situações de degradação material identificadas”.
Deverá ser
também garantida “a dotação adequada de meios técnicos e informáticos,
assegurando a plena operacionalidade das plataformas digitais e evitando
constrangimentos que agravem a morosidade processual.”
E por fim, termina a Resolução, que seja
apresentada à “Assembleia da República, no prazo de 90 dias, um relatório
detalhado sobre o estado dos tribunais do distrito de Portalegre, incluindo
número de magistrados em efetividade de funções, lugares vagos, pendências
processuais por área, estado das instalações e medidas corretivas previstas.”
Como bem se vê,
a Comarca vai ficar um brinquinho e vai ser a inveja do país inteiro, desde
logo a inveja dos Oficiais de Justiça que vão todos querer ser movimentados para
lá para ocupar todos os lugares que as entidades mencionadas na Resolução vão
disponibilizar para suprir a carência de Oficiais de Justiça.
Vejam bem a
sorte dos Oficiais de Justiça: para além deste Governo, têm ainda o azar de ver
acrescido um Parlamento assim.
Nem em Bruxelas
os Oficiais de Justiça se safam, por mais queixinhas que ali façam, a não ser
que se façam realmente à vida, pois crescidos e de maioridade já são, só lhes
faltando agir como tal.
Fonte: “Resolução da Assembleia da República 87/2026 de 27ABR”.
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