“Não há folga para alguém ficar doente, não há folga para nada. Temos sempre de encontrar soluções criativas para suprir as necessidades”
Em entrevista ao jornal “O Mirante”, a juiz presidente da Comarca de Lisboa Norte, que agrega os tribunais de Loures, Vila Franca de Xira, Alenquer, Torres Vedras, Lourinhã e Cadaval, esclarece alguns dos problemas da Comarca, respondendo às questões colocadas.
Vamos a seguir
reproduzir a entrevista, nas partes que julgamos mais relevantes para este
artigo.
O Mirante – Vários
tribunais da Comarca aparentam ter menos vigilância que o adequado. Sente-se
segura em vir trabalhar?
Presidente – Esse
é um tema permanente. Em Loures conseguimos ter os mínimos de segurança, e
quando há a sinalização de algum processo que envolva maior risco os juízes
solicitam a presença de maior apoio policial. Mas isso não cobre tudo porque há
sempre situações de perigo que não são antecipáveis. O ideal era termos uma
força policial em permanência no edifício. Mas há algumas situações de risco,
temos edifícios sem qualquer segurança, como Torres Vedras. Também não temos
nenhum vigilante no tribunal da Lourinhã…
O Mirante –
Temos feito várias notícias sobre as más condições dos tribunais de Vila Franca
de Xira e de Loures. Já recebeu respostas de Lisboa sobre o estado em que vocês
trabalham?
Presidente – Ainda
não, mas não largamos este assunto, quer em Loures quer em Vila Franca de Xira.
O presidente da Câmara de Loures, por exemplo, já conhece o estado do nosso
tribunal e está sensibilizado para isso, comprometeu-se a colaborar e suportar
o valor das obras que este edifício precisa e estamos agora na fase de ultimar
o projeto. Quero acreditar que vamos ter aqui obras de requalificação em breve
neste edifício.
Em Vila Franca de
Xira há a promessa da construção de um novo tribunal, mas até lá não podemos
esquecer o palácio da justiça nem as outras secções que funcionam em condições
muito más. É um desafio imenso que às vezes nos tira a respiração, mas não
posso desanimar.
Neste momento, o
palácio da justiça de Vila Franca de Xira é um dos principais problemas que
temos. Curiosamente, o próprio palácio nem é o que oferece piores condições,
mesmo com salas de audiências em contentores no meio do jardim.
Em piores
condições estão os juízes e funcionários no edifício ao lado, dos juízos de
trabalho, e ninguém fala deles. O sítio onde trabalham não é um bunker,
chamam-lhe um aquário.
Os gabinetes dão
diretamente para a rua e têm um vidro fosco em que de dentro para fora é
possível ver. É revoltante ver a forma como o Estado obriga estes profissionais
a trabalhar nessa secção, que não tem o mínimo de condições.
Já pedi uma
audiência ao presidente da câmara de Vila Franca de Xira para lhe dizer isto
mesmo. Nada aconteceu naquele edifício nos últimos 15 anos.
O Mirante – Não
tem medo de fazer ouvir a sua voz e de reivindicar?
Presidente – Muita
gente já deve estar pelos cabelos com os ofícios que estou sempre a enviar
sobre estes assuntos (risos), mas enquanto estiver em funções isto não me vai
dar descanso e não me vou calar.
O Mirante – Tem
noção que é uma posição polémica?
Presidente – Que
há colegas que dizem que não devia ser tão vocal quanto ao assunto... Sim, mas
esta é a minha função. Eu estou presidente da Comarca, mas sou juiz. Se deixar
de ser útil nesta função regresso ao meu papel. Mas a verdade é esta: quem não
reclama, quem não se faz ouvir, não vê um problema resolvido. Temos avançado em
algumas coisas e temos esperança que outros problemas se resolvam, entretanto.
O Mirante – Tem
vergonha do estado a que chegou o tribunal de Vila Franca de Xira?
Presidente – Claro
que sim. Só nos deve envergonhar este desinvestimento nas condições em que
estes órgãos de soberania e justiça funcionam. Mas não é o único. Veja o estado
em que está o tribunal do Cadaval. Após a reforma passou a ser juízo de
proximidade. Uma terra que há séculos tem tribunal. E no próximo inverno, se
não forem feitas obras urgentes, vai ter de fechar. Tem um único funcionário em
permanência e quando chove cai água em cascata numa parede atrás dele…
O Mirante – Depois
de anos de promessas, avanços e recuos, é desta que acredita que Vila Franca de
Xira terá um novo tribunal?
Presidente – Tenho
essa esperança. Gostava que o presidente da Câmara de Vila Franca de Xira
fizesse o mesmo que o presidente de Loures e pudesse encontrar uma solução para
requalificar o atual palácio da justiça. O presidente de Vila Franca de Xira
tem dado um contributo muito expressivo e o empenho dele na construção do novo
tribunal é inegável, mas gostava que olhasse também para o edifício atual e nos
ajudasse a requalificar o edifício, que tem muito valor no património da
cidade. Independentemente do novo Palácio da Justiça surgir ou não no campo da
Armada, devia-se requalificar o atual tribunal. É preciso garantir condições às
pessoas que ali prestam serviço. Não posso dizer que batemos no fundo no que
toca ao edificado, mas temos alguns edifícios em que sim, estão sem condições
para que se trabalhe neles. E isso é quase como bater no fundo. Estamos a
trabalhar para os poder melhorar, mas não depende apenas de nós aqui na Comarca.
O Mirante – Quando
ouve alguém dizer-lhe que vão fazer uma operação cosmética no atual Palácio da
Justiça, por exemplo, substituindo os contentores velhos por outros, isso para
si não é uma solução?
Presidente – Incomoda-me
verdadeiramente essa ideia.
O Mirante – Têm
metade dos funcionários judiciais que precisam?
Presidente – Sim,
um problema de quadros e os que existem estão desfasados das necessidades.
O Mirante – Concorda
com a reorganização do mapa judiciário?
Presidente – Sou
completamente a favor desta orgânica atual. Já é difícil gerir as comarcas
estando agregadas quanto mais se estivessem separadas. Apesar de ser uma
organização que a nível nacional tem alguns problemas, como as características
diferentes e dimensões distintas das várias comarcas, continua a ser uma boa
solução.
O Mirante – O
que é que lhe causa angústia na Justiça e o que é que deveria ser prioritário
resolver?
Presidente – Há
acertos a fazer ao nível legislativo, mas, a meu ver, não é preciso uma reforma
muito expressiva da justiça. É preciso é dar condições para que as normas que
estão atualmente em vigor sejam efetivamente aplicadas.
Precisamos muito
de investimento na justiça. Precisamos que a tecnologia acompanhe as nossas
necessidades, que os recursos humanos suportem um funcionamento ágil, moderno e
eficaz do sistema. Esses são os meios em que se deve investir, obviamente
também no edificado, porque atingimos condições que são vergonhosas.
Perante todos
estes desafios a nossa equipa faz milagres todos os dias, produzindo trabalho
em condições que não são boas e muitas vezes com computadores que não
funcionam.
Veja-se a gestão
dos recursos humanos: não há folga para alguém ficar doente, não há folga para
nada. Temos sempre de encontrar soluções criativas para suprir as necessidades.
Há muito amor à camisola. É a única forma de manter o funcionamento do serviço.»
Fonte: reprodução parcial do artigo publicado no “O Mirante”.
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