“Nem expulsar quem quer ficar, nem abandonar quem precisa de partir”
«A idade fixa de reforma é uma das últimas heranças de uma visão industrial do ser humano: a ideia de que todos envelhecemos da mesma maneira, ao mesmo ritmo, com as mesmas capacidades e as mesmas necessidades. Nada disto corresponde à realidade. A uniformização pode ser cómoda para a administração, mas é profundamente injusta para as pessoas.
A verdade é
simples: não há duas velhices iguais. Há quem chegue aos 60 anos exausto,
marcado por décadas de trabalho pesado, por doenças acumuladas, por vidas que
não deram descanso. E há quem, aos 70 ou 80, mantenha lucidez, energia, vontade
e capacidade de continuar a contribuir para a sociedade. A lei, porém, não vê
estas diferenças. Vê apenas um número. E quando a lei olha apenas para um
número, produz injustiça.
Falo também da
minha própria experiência. Trabalhei no Ministério da Educação e, aos 62 anos,
já tinha mais do que tempo de serviço para me reformar. Mas estava no auge da
minha vida intelectual. Continuei a trabalhar até aos 80 numa universidade
privada, e só saí porque a idade legal assim o impunha. Hoje, aos 89, mantenho
uma vida ativa, colaboro com jornais e revistas científicas, participo no
debate público. A lei considerou-me “inválido” quase a meio do meu percurso
profissional. Não era verdade. E não é verdade para milhares de pessoas que
continuam capazes, motivadas e úteis.
Por isso,
defendo dois princípios que deveriam orientar qualquer política sensata sobre a
reforma.
Primeiro
princípio: não fechar a porta a quem tem saúde, capacidade laboral e vontade de
continuar. A reforma não pode ser uma sentença de expulsão. Para muitos, o
trabalho não é exploração; é identidade, pertença, realização pessoal. Obrigar
alguém a abandonar o que ama é uma forma de violência silenciosa, praticada em
nome de uma igualdade que não existe. A sociedade perde experiência, perde
conhecimento, perde maturidade, e perde também a diversidade de ritmos e
percursos que enriquecem a vida coletiva.
Segundo
princípio: proteger quem fica diminuído por incapacidades de idade ou de
doença. A justiça social exige o contrário da rigidez: exige atenção às diferenças.
Quem trabalhou em profissões penosas, quem envelheceu mais depressa, quem
perdeu capacidades, quem precisa de parar – deve poder fazê-lo sem culpa, sem
penalizações e sem burocracias humilhantes. A reforma deve ser um direito, não
um privilégio condicionado por tabelas cegas.
Entre estes dois
princípios não há contradição. Há, pelo contrário, a única forma sensata de
pensar a reforma: como um instrumento flexível, ajustado à vida real, e não
como um decreto uniforme imposto a todos.
A igualdade aritmética
– a mesma idade para todos – é, na verdade, uma forma de desigualdade. Tratar
de forma igual o que é profundamente diferente é negar a justiça.
Num país que
envelhece, o desafio não é empurrar todos para fora ao mesmo tempo, nem manter
todos dentro contra a sua vontade. O desafio é reconhecer a pluralidade das
vidas, das histórias, das capacidades e dos desejos.
A idade da
reforma deveria ser uma porta com duas direções: aberta para quem precisa de
sair, aberta para quem quer continuar.
O futuro não
está na rigidez, mas na liberdade responsável. E essa liberdade começa por
reconhecer que a idade, só por si, não diz nada sobre o valor, a dignidade ou a
capacidade de cada pessoa.»
Fonte: reprodução do artigo intitulado "A idade da reforma e a ficção da igualdade", da autoria de José Afonso Baptista, publicado esta semana no "Diário As Beiras".
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