É hoje o “Dia Internacional do Bem-Estar Judicial”
Pela primeira vez, é assinalado hoje o “Dia Internacional do Bem-Estar Judicial” (International Day for Judicial Well-being), aprovado pela Declaração de Nauru das Nações Unidas (ONU), porque a Justiça deve começar pelo bem-estar das pessoas que nela trabalham.
Nauru é um muito
pequeno país, uma república independente, que corresponde a uma ilha situada na
região da Micronésia, no Oceano Pacífico Central. Depois do Vaticano e do
Mónaco, Nauru é o terceiro país mais pequeno do Mundo, com os seus 21 Km2 e
pouco mais de 10 mil habitantes.
Nauru foi o país
escolhido pelas Nações Unidas para a realização em julho de 2024 de uma Conferência
Judicial Regional sobre Integridade e Bem-estar Judicial, sendo a iniciativa
levada a cabo pelo Gabinete das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) em
parceria com o Judiciário de Nauru. A conferência reuniu uma vintena de representantes
judiciais e especialistas globais para enfrentar uma preocupação comum que diz
respeito aos juízes e a todos os demais trabalhadores da justiça que, pelo
Mundo fora, estão sujeitos a trabalhar sob pressão, muitas vezes sem os
recursos ou o reconhecimento de que precisam.
Assim, no dia 25
de julho de 2024, foi adotada a Declaração de Nauru sobre Bem-estar Judicial,
que reconhece que a saúde e o bem-estar de todos os profissionais da justiça são
fatores essenciais para garantir a integridade judicial, a independência e a
qualidade da justiça prestada ao público.
A Declaração de
Nauru descreve sete princípios fundamentais orientadores para as organizações
judiciais de cada país, para que promovam o bem-estar dos seus profissionais da
justiça.
–1– O bem-estar
judicial é fundamental
´O
bem-estar judicial é essencial para garantir um sistema judicial justo e
eficaz. Sem ele, a independência judicial e a confiança pública estão em risco.
–2– O estigma
deve ser removido
O stresse judicial e os desafios de saúde
mental devem ser reconhecidos abertamente. Enfrentar tais dificuldades não
reflete fraqueza ou falta de aptidão para servir.
–3– Responsabilidade
partilhada
Promover o bem-estar judicial é uma
responsabilidade coletiva em que cada um e as instituições judiciais devem participar
ativamente.
–4– A cultura é
importante
É necessária uma cultura judicial solidária e
inclusiva. As instituições devem promover ambientes éticos que priorizem o
bem-estar.
–5– As
abordagens holísticas são fundamentais
Os esforços de bem-estar devem incluir uma
combinação de estratégias de sensibilização, prevenção, intervenção precoce e
recuperação.
–6– Adaptabilidade
ao contexto local
Ações para apoiar o bem-estar judicial devem
refletir as necessidades e realidades específicas de cada jurisdição.
–7– Ligado aos
direitos humanos
O bem-estar judicial está ligado à proteção e
promoção mais amplas dos direitos humanos, incluindo os direitos dos
utilizadores e funcionários judiciais.
E assim, aproveitando
o impulso da Declaração de Nauru de julho de 2024, no ano seguinte, em março de
2025, a Assembleia Geral das Nações Unidas adotou a Resolução A/RES/79/266,
proclamando oficialmente o dia 25 de julho como o Dia Internacional do
Bem-Estar Judicial, sendo hoje a primeira vez que tal Dia é assinalado.
A este
propósito, vai a seguir reproduzido um artigo publicado no Público e subscrito
por João Paulo Dias, investigador no Observatório Permanente da Justiça do Centro
de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra.
“O funcionamento
da justiça pode parecer um tema distante da realidade da maioria das pessoas.
Não é. A forma como cuidamos dos e das profissionais da justiça influencia
diretamente a qualidade das decisões judiciais, a confiança nos tribunais e, em
última análise, a proteção dos direitos de todos e todas nós.
Nas últimas
décadas, a discussão sobre a justiça centrou-se quase exclusivamente na redação
das pendências, na produtividade dos tribunais ou na digitalização dos
processos. Estas continuam a ser prioridades importantes. Mas existe uma
dimensão que permaneceu praticamente invisível: as condições de quem trabalha
diariamente nos tribunais.
Juízes/as,
magistrados/as do Ministério Público e Oficiais de Justiça são frequentemente
vistos como meros operadores da justiça nos tribunais. Mas, antes disso, são
pessoas. Tal como médicos/as, professores/as, enfermeiros/as ou elementos das
forças de segurança, trabalham sob pressão permanente, enfrentam elevada
responsabilidade, lidam diariamente com conflito, sofrimento humano, violência,
criminalidade e decisões com profundo impacto na vida das pessoas. Decidir
conflitos, avaliar prova, conduzir audiências ou responder às solicitações
permanentes das pessoas exige atenção, equilíbrio e tempo para refletir.
Quando
predominam a fadiga, a pressão quantitativa, a falta de recursos humanos, a
intensificação contínua do trabalho, equipamentos e software desatualizados e deficientes ou más condições das
infraestruturas, para não falar dos salários dos Oficiais de Justiça, aumenta
inevitavelmente o risco de erro, diminui-se a capacidade de inovação e torna-se
mais difícil responder às exigências crescentes da sociedade. Neste contexto,
discutir o bem-estar judicial não significa apenas proteger os e as
profissionais da justiça. Significa igualmente proteger a qualidade de um dos
pilares fundamentais do Estado de direito.
A evidência
científica mostra precisamente o contrário. Os estudos realizados em Portugal,
desde 2018, pelo Observatório Permanente da Justiça, do Centro de Estudos
Sociais da Universidade de Coimbra, revelam níveis elevados de sobrecarga de
trabalho, conflitos entre vida profissional e pessoal e familiar, dificuldades
na recuperação física e psicológica, sintomas de exaustão emocional, problemas
de sono, ansiedade e desgaste profissional entre diferentes profissões
judiciais.
Encontramos
profissionais que não deveriam estar a exercer funções; entre 15 a 20%
mostraram claramente sinais de risco elevado de poder entrar em burnout. Estes problemas não representam
apenas um custo individual. Constituem um risco institucional. E,
adicionalmente, como demonstrado nos estudos, têm enormes custos humanos,
organizacionais e financeiros.
Acumulação de
serviços num só profissional por baixas médicas de colegas, serviços parados
por falta de profissionais; ou sete a dez milhões de custos médios anuais com o
total de baixas em cada uma das magistraturas. Estes são apenas alguns exemplos
dos impactos da negligência em relação a este problema que se faz sentir nos
cerca de 10.000 profissionais a trabalhar nos tribunais portugueses.
A pandemia
tornou esta realidade ainda mais evidente. Os tribunais conseguiram manter-se
em funcionamento graças ao enorme esforço de adaptação dos seus profissionais.
Porém, também revelou limitações profundas da organização judicial:
dificuldades de coordenação, insuficiências tecnológicas, edifícios pouco
adaptados, desigualdade no acesso ao teletrabalho e ausência de mecanismos
consistentes de apoio organizacional. A resposta foi possível porque as pessoas
compensaram muitas das fragilidades do sistema. Mas nenhuma organização pode
depender indefinidamente da resiliência individual das e dos profissionais.
Os últimos anos
foram marcados por um enorme paradoxo: verificou-se um investimento muito
significativo na transformação digital da justiça; e um grande desinvestimento
na qualificação, qualidade e quantidade dos recursos humanos nos tribunais. A
digitalização constitui uma oportunidade extraordinária e deve prosseguir. Mas
existe um risco quando a modernização tecnológica passa a ser encarada como
resposta suficiente a todos os problemas da justiça. Computadores mais rápidos,
plataformas digitais ou algoritmos mais eficientes não reduzem, por si só, a
sobrecarga de trabalho, não substituem lideranças organizacionais competentes,
não melhoram o ambiente laboral, nem previnem o burnout.
O debate
internacional sobre bem-estar judicial aponta precisamente nessa direção.
Cuidar das pessoas deixou de ser visto como uma política de recursos humanos
para passar a integrar uma estratégia de reforço da independência judicial,
eficiência organizacional e qualidade das decisões. Não é por acaso que
organizações internacionais e diversos sistemas judiciais têm vindo a colocar
esta matéria no centro das suas agendas, seguindo, por exemplo, as
recomendações mais recentes da Organização Internacional do Trabalho, Conselho
da Europa e União Europeia.
Portugal dispõe
hoje de conhecimento suficiente para dar passos firmes. E instituições como o
Conselho Superior da Magistratura já começaram a adotar as primeiras medidas,
mas são insuficientes para dar conta de todos os problemas. As prioridades são
relativamente claras e operacionalizadas em recomendações nos estados do
Observatório Permanente da Justiça: reforçar e proteger os recursos humanos;
promover modelos de liderança mais participativos e atentos aos riscos
psicossociais; monitorizar regularmente o bem-estar dos/as profissionais da
justiça; melhorar a conciliação entre trabalho e vida pessoal e familiar; e
assegurar que qualquer processo de modernização tecnológica seja acompanhado de
investimento equivalente nas pessoas.
Uma justiça de
qualidade depende da capacidade de concentração, ponderação, serenidade e
disponibilidade cognitiva de quem trabalha nos tribunais. Espera-se, assim, que
sejam imunes ao desgaste profissional, incluindo o stresse e o burnout. E que estejam sempre
operacionais, no máximo das suas faculdades mentais e físicas, em constante
alta intensidade.
No final, a
pergunta que devemos fazer não é apenas quem cuida dos/as profissionais da
justiça. A verdadeira questão é outra: que justiça estaremos a proporcionar às
pessoas se ignorarmos o bem-estar daqueles/as que têm a responsabilidade diária
de a fazer funcionar?”
Fontes: “ONU” e “Público”.

Sim, tão linda teoria!
ResponderEliminarE na prática do dia a dia o que se vive?
Falta de tudo, pessoas, humanos, equipamentos, condições dignas
Cada vez mais pressão e menis dinheiro para as despesas
E o que governos e sindicatos fazem para melhorar?
Conversações que não saiem do papel!
Muitos funcionários só vêm uma alternativa para ter qualidade, é meter baixa por exaustão!
Tristeza
Não diria mais certeiro
EliminarE sinda vem a conversa di fofinho?
Cagar nessa conversa é pouca definição da atitude de oportunistas qye é a senda de 25 anos ou 30 de sindicalismo nesta dita classe
Nojo
Mais uns dias numas ilhas idílicas, pagas com dinheiros de terceiros para nos virem informar que o céu é azul
ResponderEliminarAgora, pode voltar tudo ao (a)normal
Fujam miúdos ! Eu estou a dias de dar o fora ! Fartinho de tanta mentira! Como isto ficou nos últimos 20 anos ! NOJO!
ResponderEliminarCarreira maldita!!!!
ResponderEliminarEu não acabo a carreira sem antes me atirar de uma ponte ou de um precipício e matar-me com um bilhete no bolso a contar tudo!!!!
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