O Momento Eureka de Regina
É claro que todos desataram à gargalhada, mas àquela gargalhada que surge inata na sequência de um espanto e de uma perceção de frustração.
Sim, eram essas
as gargalhadas que se ouviram esta quarta-feira nos tribunais e nos serviços do
Ministério Público quando os Oficiais de Justiça leram até ao final o artigo
subscrito pela presidente do Sindicato dos Funcionários Judiciais (SFJ)
publicado no Correio da Manhã.
A presidente Regina
voou até aos Açores e, ali chegada, foi arrebatada pela constatação de que o
acordo firmado pelo seu sindicato com o Governo, que conduziu à nova carreira
com a extinção de categorias, foi um erro tremendo.
O decurso do
tempo provoca distanciamento do facto em análise, permitindo uma visão mais
desprendida de conceitos cerrados, facultando uma análise mais crítica, advinda
também da confluência da aprendizagem de situações reais e da aprendizagem que
a complexidade da realidade aporta aos mecanismos cognitivos do indivíduo.
Regina parece
ter começado a conseguir absorver essa aprendizagem, assim começando a
virar-o-bico-ao-prego.
Tal como o velho
grego Arquimedes, nos Açores, Regina também teve o seu momento Eureka e no
artigo desta quarta-feira, 15JUL, publicado no Correio da Manhã, aborda a falta
de Oficiais de Justiça e conclui assim:
«O novo
Estatuto, ao fundir as categorias de escrivão auxiliar e escrivão adjunto,
eliminou um dos poucos incentivos que levavam oficiais de justiça a concorrer
para as ilhas. Hoje, sem compensações, poucos aceitam trocar a sua terra por
uma ilha distante, onde o custo da habitação, da vida e até o acesso à saúde
tornam essa decisão ainda mais difícil.»
Espantoso, não
é?
Antes de mais, convém
deixar o aviso de que não há nenhum novo Estatuto, como Regina começa por afirmar,
o que há são diplomas avulsos e, sim, um velho Estatuto ainda válido – pelo
menos é o que é público e conhecido, sem prejuízo de poder haver já, realmente,
um novo Estatuto elaborado nas secretas reuniões técnicas, mas, a existir tal
novo Estatuto, ainda não chegou ao conhecimento da plebe.
Regina Soares
apercebe-se agora, após a viagem aos Açores, talvez até na sequência de algum
abanão sísmico que lhe tenha provocado alguma sacudidela racional, de que a
fusão das categorias é uma perversão com consequências gravíssimas e não só
quanto às colocações e às movimentações de Oficiais de Justiça, aspeto este que
deveria ser preocupação da Administração da Justiça e não estar sequer na
primeira linha das preocupações sindicais.
Regina deveria dizer
que o erro da fusão das categorias acabou com o interesse na progressão na
carreira e a Administração da Justiça, por sua vez, deveria dizer que a mesma
fusão provocou uma grande falta de mobilidade dos Oficiais de Justiça. Cada
entidade deveria preocupar-se, em primeira instância, com aquilo que são os
seus objetivos primeiros, sem inversão de papéis, isto é, o sindicato não tem
de fazer de conta que é um gabinete auxiliar do Governo, nem a Administração da
Justiça tem, necessariamente, de defender uma carreira que mantenha acesa a
chama do interesse dos Oficiais de Justiça em progredir na mesma.
Cada-macaco-no-seu-galho.
Quando o sindicato assume postura governamental também diz coisas assim:
«Quando um
processo deixa de avançar por falta de quem o faça andar, a justiça deixa de
ser igual para todos. Perde o cidadão…»
Quem paga as
quotas ao sindicato não é o cidadão que perde por o processo não andar, são os
Oficiais de Justiça.
Por muita razão
que tenha, e tem, em apontar a perda do cidadão, o foco de um sindicato são os
seus associados, carecendo estes de toda a atenção para uma intransigente
defesa de cada seu representado. Aliás, se os trabalhadores estiverem
satisfeitos, ganharão todos, desde logo os cidadãos, caso contrário, todos
perdem.
Os cidadãos e os
processos poderão ter, e têm, muitas carências, mas tais necessidades não devem
ser prioridades dos sindicatos, pois estes não representam nem uns, nem outros,
mas apenas trabalhadores Oficiais de Justiça e são estes, e só estes, que devem
ter toda a atenção.
Por exemplo: um
Oficial de Justiça que tenha, para si, num dia, 50 processos para cumprir e ao
final do dia só tenha cumprido 25, pode ir para casa às 17H00 com toda a serenidade
do dever cumprido. Fez o que podia durante todo o dia, não perdeu tempo com
mais nada senão com o serviço, pelo que o seu sindicato deve zelar por este
Oficial de Justiça e não pelos restantes 25 processos.
Embora seja
óbvio que faz falta outro Oficial de Justiça para os demais processos, essa é
uma preocupação que deve estar do lado da Administração da Justiça, enquanto
que o sindicato do Oficial de Justiça que existe e não do Oficial de Justiça
que não existe, isto é daquele que falta, deve centrar a sua preocupação na
pessoa e na vida do Oficial de Justiça que existe, zelando para que a sua
carreira seja melhor, independentemente dos demais problemas que dizem respeito
à Administração da Justiça.
Se no exemplo o
Oficial de Justiça tiver, não os 50 processos para cumprir, mas 500, o assunto
continua a ser precisamente o mesmo: às 17H00 deverá o Oficial de Justiça continuar
a ir para casa imbuído de um espírito de serenidade pelo dever cumprido.
Nenhum Oficial
de Justiça deve trabalhar por dois, três ou até mesmo mais. Ninguém deve se
voluntariar para trabalhar horas a mais gratuitas. Todos se devem esforçar em
realizar o melhor possível o seu trabalho dentro das suas possibilidades e
horário, sendo certo que aquilo que não é possível fazer, não se fará e essa
preocupação sobre aquilo que fica por fazer é uma preocupação para a
Administração da Justiça, não para o sindicato que representa as pessoas
trabalhadoras e Oficiais de Justiça.
Esta pequena diferença
no foco das preocupações de primeira linha resulta numa grande diferença na
atuação sindical, pelo que é necessário ter bem presente quais são as
atribuições e as preocupações dos sindicatos e quais são as atribuições e
preocupações do Governo, sem misturar.
Seja como for e
independentemente de tanto quiproquó, a revelação a que se assiste no artigo desta
quarta-feira poderá vir a projetar alguma luz para a problemática que todos têm
vindo a apontar, podendo vir a suceder que aquilo que os Oficiais de Justiça
veem e sentem no seu dia a dia seja idêntico àquilo que os negociadores técnicos
sindicais também possam vir a ver e a sentir.
Existe o indício.
Concretizar-se-á a fusão das visões? Concretizar-se-á alguma vez o total
alinhamento das posições dos sindicatos com a dos seus representados, ou
permanecerá o atual alinhamento, fusão ou confusão, com o Governo?
O tempo e talvez
também as viagens dirão.
Fonte: artigo do Correio da Manhã divulgado na página do SFJ.

Se muitos foram do continente para as ilhas pelo incentivo da promoção, pois com a fusão de categorias óbvio não irão fazer agora esse sacrifício. Promoção foi-se. Agora ou arranjam maneira de dar incentivo que pode passar por incrementar 1 escalão ou 2, por exemplo, ou sem incentivo qualquer dia não vão ter nas ilhas ninguém do continente naqueles tribunais. Pensem nisso técnicos de reuniões
ResponderEliminarAí agora é que dão conta que acabou o incentivo da promoção para as ilhas?? Bem vinda ao mundo real regina e outros que tais! E os delegados assessores sindicais das ilhas não assessoraram nada?? Tristeza de sindicalismo
ResponderEliminarProfessores conseguiram apoio para deslocações . Ojs zero. Deslocados mal ganham para renda de casa levam marmita! Força escravos bem representados pelos sfjs e sojs que vivem fora do mundo
ResponderEliminarSubsídios de deslocação de cerca de 500 euros! Saí do SFJ há uns anos e foi a melhor decisão que tomei. Deram cabo da nossa carreira.
EliminarEspantoso, de facto. Evidentemente que tudo o que se está a passar era esperado. Até quando o desrespeito? Continuam a decidir a nossa vida nas nossas costas e depois vêm fazer o papel de coitadinhos e admirados.
ResponderEliminarNão me faltam muitos anos para a reforma, mas nunca esquecerei a mesquinhez e a inveja de um colega, histéricamente feliz, que dizia que finalmente os Adjuntos iam fazer julgamentos...Era o grande sonho e a grande motivação de muitos! Resultado: Nem os Adjuntos fazem julgamentos e os Auxiliares vão andar a fazê - los até aos 70 anos...Mais uma grande conquista para a classe, de vitória em vitória até à derrota final!
ResponderEliminarEntão o número dois do sindicato, que esteve quase a ser número um, que por acaso é das ilhas,não deu conta desta nefasta cacetada a sra. Dra Regina?
ResponderEliminarUns fazem o tour completo dos Açores, na melhor altura do ano, sem despesas. Outros fazem quase todo o ano o tour do continente, também sem despesas .
A carneirada, ainda se dá ao trabalho de os receber, não se vão perder
as mordomias e os almoço , á pala .
a geração de ouro do sindicalismo judiciário está prestes a entrar em campo para mais uma ronda hidratação da carreira
ResponderEliminarNão me parece que a Sra Presidente do SFJ tenha tido uma epifania nos Açores. Acho que ela disse aquilo que convinha aos ouvidos daquele território.
ResponderEliminarAi agora é que viram a merda que assinaram, estiguiram a única categoria que movimentava oficiais de justiça para as ilhas, a de adjunto. Agora, não resta muito tempo, nos Açores, Madeira e Continente que os Tribunais não tenham Oficiais de Justiça, pois a promoção a adjunto era o que mantinham os tribunais com gente. Agora é uma questão de tempo para o que já está no fundo, os tribunais, deixarem de existirem. Grande tiro no pé Sindicatos.
ResponderEliminarMais do mesmo, diz uma coisa e assina outra.
ResponderEliminarMas há quem goste
Serão eles inimputáveis?
ResponderEliminarNão sei se os colegas têm constatado, mas desde algum tempo para cá que o SFJ se tem tentado colar ás principais razões e injustiças que motivam o descontentamento geral vivenciados no seio da classe, os quais, por responsabilidade sindical são já irreparáveis. Depois de destruírem a carreira com aquele patético acordo, realizado sem sequer nos passarem cartuxo e, após as sucessivas derrotas e erros crassos que foram somando, aparentemente enveredaram agora por outra estratégia, cujo móbil se afigura ser a própria sobrevivência do SFJ e da sua direção, como por exemplo referirem que ponderam novas formas de luta, face à postura de um Governo, pasme-se, com o qual sempre estiveram de acordo. A direção do SFJ entrou num beco sem saída, por sua exclusiva responsabilidade. A margem de manobra é curta e o caminho, apenas resta o da demissão que já peca por tardia. Sugiro ao Sr. Bloguer, embora perceba a dificuldade, para que faça um artigo sobre o número de filiados do SFJ e do SOJ, bem como qual o número de desfiliações que ocorreram desde 26-02-2025, para que se possa aferir qual verdadeira representatividade de que os sindicatos dispõem atualmente.
ResponderEliminarE depois ainda vêm falar da casa do FJ (quem conhecia tal visão futurística?!?)
ResponderEliminarEsperem... Nem o SOJ, nem os próprios associados SFJ!
Derrota em derrota até à vitória final.
Visão futurista e já bem idosa, devidamente divulgada na altura.No blogue escreveu-se sobre o assunto, mas, como nāo deve ler tudo, apenas comenta para não estar calado(a). As pessoas foram informadas, a iniciativa foi de um grupo de of.justiça se bem lembro e não do SFJ.Como o pessoal se alheia de muita coisa foi o caso.Não era nada que desse logo dinheiro, era para tirar dinheiro.Fazer-se sócio e pagar, como os Magistrados têm a sua CASA do JUÍZ.A ideia terá sido ter coisa semelhante.
EliminarTexto assertivo.
ResponderEliminarBem podem os bacocos, lorpas, a agitarem e vestirem a tshirt preta do justiça para quem nela trabalha e, agora, virem pedir que a união faz a força e distúrbios gastrointestinais encefálicos do género.
O que posso garantir é que já fui sindicalizado em ambos, e a ambos fiz o dedo do meio, com o meu dinheiro não andam mais em viagens aos arquipélagos para ali chegados, constatarem com atraso de um ano e meio depois, o óbvio.
Quanto muito, o que estão a conseguir é uma especie de exumação do cadáver da carreira de OJ.
E sim, foram eles os co-autores do “homicídio” e foram também os coveiros.
Surpreendente é a malta sem vergonha do PSD e do CDS ter nestes últimos dias voltado a vir para a praça pública nos meios de comunicação apregoar à boca grande o que deu aos professores que, numa clara violação do 13 da CRP, não deu a mais ninguém na função pública e ninguém se manifestar acerca desse tratamento de segunda que foi dado a todas as outras carreiras, designadamente o tempo de serviço roubado.
ResponderEliminarE mesmo assim ainda parecem haver professores que não são tão servis quanto os governantes da AD gostariam... "a contrario" da postura de muitos dos nossos camaradinhas.
A culpa é do governo e não dos professores, mas volta e meia lá me vêm os primeiros lembrar o esterco que me consideram à beira dos segundos.
Por outro lado, desde que eles me colocaram, nos apuseram a todos nós, restantes funcionários das carreiras especiais da função pública, o rótulo de cidadãos de segunda, apenas me tem restado divertir-me com todas as trapalhadas que os mesmos vão fazendo e com os casos e casinhos que vão vindo a público acerca da ética dos ministros e seu cabecilha.
Mais uma volta, mais uma viagem!!!
ResponderEliminarE, na "ressaca" da reunião entre o SFJ e o Governo, de tudo, bem espremido, resulta que quase um terço do comunicado teve um destinatário (SOJ), que não os OJ nem o Governo. Este último, por sua vez terá afirmado que “a questão dos reposicionamentos remuneratórios está encerrada desde o acordo de 26 de fevereiro de 2025”. Resumindo, o SFJ pretende transmitir aos oficiais de justiça que a batalha principal já não é a execução do acórdão do Tribunal Constitucional, mas sim a correção das injustiças remuneratórias criadas pela transição para o novo regime e a continuação da revisão do Estatuto dos Funcionários Judiciais. Siga pra bingo!