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“O futuro não deixou de existir, está apenas a ser decidido enquanto o presente nos mantém ocupados”

      «Por que desistimos de pensar no futuro?

      Há uma pergunta que praticamente desapareceu da conversa pública: como queremos viver nos próximos anos?

      Perguntamos como chegar ao fim do mês, como responder à próxima crise, como ganhar as próximas eleições, como aumentar o PIB no próximo trimestre, como sobreviver ao algoritmo durante mais uma semana. Mas raramente paramos para pensar na sociedade que queremos construir a médio prazo. O presente tornou-se tão exigente que o futuro passou a parecer um luxo.

      Há razões legítimas para esta incapacidade de olhar em frente. Vivemos cercados por crises que reclamam atenção imediata: guerras, inflação, habitação, precariedade, alterações climáticas, erosão democrática. Para muitas pessoas, pensar no próximo mês já é um exercício de otimismo. Quanto maior é a desigualdade, mais curto se torna o futuro. Quem está concentrado em sobreviver dificilmente consegue imaginar.

      Mas há, também, um conjunto de forças que nos mantêm deliberadamente presos ao presente.

      A desinformação obriga-nos a gastar energia a discutir factos básicos, impedindo-nos de encontrar respostas coletivas. Enquanto debatemos se o problema existe, adiamos a discussão sobre como o resolver.

      O capitalismo convenceu-nos de que a felicidade é um exercício individual, medido através da capacidade de consumir, produzir e acumular. Em vez de imaginarmos sociedades mais felizes, procuramos aplicações, produtos e experiências que nos façam sentir melhor durante alguns minutos.

      A desigualdade impede-nos de pensar no desenvolvimento comum, porque separa as pessoas entre as que podem planear o futuro e as que vivem permanentemente em estado de emergência.

      A promoção da competição ensina-nos a olhar para os outros como adversários. Desde a escola ao emprego, somos incentivados a ultrapassar, distinguir e vencer, como se a realização de uma pessoa dependesse necessariamente da derrota de outra.

      E a polarização transformou o compromisso numa fraqueza e a dúvida numa traição. As soluções democráticas, que precisam de tempo, negociação e confiança, parecem demasiado lentas para uma sociedade viciada em respostas imediatas.

      Estamos, portanto, muito ocupados. Mas o futuro não ficou suspenso enquanto tentamos resolver o presente. Continua a ser construído, apenas sem a participação da maioria de nós.

      E é aqui que entra a tecnologia. A Inteligência Artificial, a robótica e os novos sistemas de automatização não são apenas ferramentas que tornarão algumas tarefas mais rápidas. Vão alterar estruturalmente o trabalho, a educação, a política e a distribuição do poder. Apesar disso, a conversa pública continua concentrada nas funcionalidades mais superficiais: se uma máquina consegue escrever um texto, criar uma imagem, responder a uma pergunta ou substituir uma tarefa administrativa. São questões relevantes, claro. Mas há outras muito mais importantes.

      O que acontecerá quando uma parte substancial do trabalho puder ser automatizada? A riqueza produzida permitirá reduzir o horário de trabalho e melhorar a vida de todas as pessoas ou ficará concentrada nas organizações que controlam a tecnologia? Vamos trabalhar menos ou apenas viver com mais medo de deixar de ser necessários?

      Que escola fará sentido quando o acesso à informação deixar de ser o principal problema? Continuaremos a avaliar a capacidade de memorizar respostas ou passaremos a valorizar o pensamento crítico, a criatividade, a cooperação e a capacidade de fazer perguntas?

      Como funcionará a democracia quando for possível produzir milhares de mensagens políticas personalizadas, fabricar acontecimentos credíveis e antecipar comportamentos individuais? Quem terá mais poder: os governos eleitos ou as empresas que controlam os dados, os algoritmos e as infraestruturas?

      E que lugar reservaremos às atividades que não queremos tornar mais produtivas, mas mais humanas? O cuidado, a arte, a educação, a investigação, a conversa, o tempo passado com outras pessoas?

      Talvez o mais assustador não seja a possibilidade de as máquinas começarem a pensar. É a possibilidade de nós deixarmos de o fazer.

      Dizer que não fazemos ideia de como será a sociedade daqui a quinze anos pode ser uma declaração honesta. Nenhuma geração conseguiu prever totalmente o seu futuro. Mas não pensar nele é uma escolha política. Pensar no futuro não significa adivinhar o que vai acontecer. Significa discutir o que queremos que aconteça, perceber o que desejamos evitar e tomar decisões no presente que aumentem as possibilidades de chegarmos a algum lugar escolhido coletivamente.

      Precisamos de voltar a pensar num futuro próximo. Não no ano 2100, tão distante que permite todo o tipo de promessas sem consequência, mas nos próximos dez ou quinze anos. Um horizonte suficientemente longo para transformar a sociedade e suficientemente curto para ainda vivermos dentro dela.

      Se não ocuparmos esse espaço com imaginação, debate e decisões democráticas, alguém o fará por nós. Na verdade, já está a fazer. O futuro não deixou de existir. Está apenas a ser decidido enquanto o presente nos mantém ocupados.»


      Fonte: reprodução do artigo de opinião de Tiago Sigorelho em "Gerador".

Comentários

  1. I've seen things you people wouldnt believe ...

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  2. «Por que desistimos de pensar no futuro?
    Qual futuro? O que interessa é o presente e o presente diz-nos, que É JÁ AMANHÃ, CARAGO, que os sindicatos e o MJ, vão acordar em todas as questões pendentes.
    Pensando bem! Se amanhã for um dia de trabalho, coitados não vão ter tempo para falarem sobre as férias!
    Oh, se calhar é melhor marcar-se outra reunião lá para outubro, para se falar em trabalho.

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  3. Anti aldrabões e hipócritas30/8/26 10:05

    É apenas um lindo texto
    Mas no caso dos ojs o que vejo no dia a dia é inveja do vizinho do lado
    Demonstrativo do que é o âmago humano
    O futuro é hoje

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  4. O futuro nunca foi tão previsível como agora. As diversas ciências ajudam nessa tarefa.
    Um planeta a esgotar-se.
    Um mundo com excesso de população, de religiões e de confitos.
    Uma europa caótica, que deslocalizou séculos de evolução para outras bandas e que está a viver um regresso a uma nova idade média, onde a pobreza , a ignorância e os conflitos aumentam.
    Um Portugal envelhecido em transformação irreversível.
    Uma profissão a viver o mesmo ciclo, também ela em transformação, sem qualquer hipótese de se reinventar.
    Eu, aproveito o melhor que posso aquilo que me mantém equilibrado, a família, o lazer, o trabalho. Se tivesse que ir hoje, ia realizado.

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    1. Pois, mas eu se tivesse que ir hoje talvez nem percebesse muito bem o que aqui andei a fazer!...

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    2. Ias realizado? Todos vão realizados após a morte.

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    3. Realizadissimos depois de morrer todos realizados.

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  5. Eu Não tenho filhos, mas se tivesse ficava de facto preocupado com o seu futuro, pois esta sociedade está a ficar bonite está.
    Eu pensaria mil vezes antes de dar um filho esta sociedade!

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  6. Mas porque é que somos os mais maltratados?
    Lembram-se quando não havia sequer negociações, só depois da greve aos actos e das seguintes começámos a existir.
    Venham elas, fica caro mas depois recupera-se qualquer coisita. Especialmente quem tem muito tempo de serviço, a quem já roubaram mesmo muita coisa, mostrem o que fazem os doutores e os deslocados. É tão fácil que qualquer um pode ir para qualquer lugar...

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    1. Com cagões não se vai a lado nenhum.

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  7. Tudo o que me fez vir, e acabar por ficar, já era.
    Porque não fizeram as alterações só para quem entrasse? Assim sabiam ao que vinham e nós ensinavamos, tudo o que não vem nos códigos porque estávamos bem dispostos, com o serviço controlado e as contas pagas.
    Eu noto que já não vou às mesmas lojas e que há muitas coisas que deixei de comer.
    Cada vez são mais os que almoçam no tribunal, os que deixaram de ir de carro.

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    1. Ora aí está.
      Quem entrou antes de 2005 simplesmente foi enganado e continua. Por isso a mim não me venham com mais conversasinhas de lutasinhas. Fodam-se

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  8. E as chefias cada vez mais loucas.
    Quanto mais " são donos disto tudo" piores. Alguns fizeram coisas que podiam dar em expulsão se o COJ não varresse para debaixo do tapete. Mas isso dá trabalho e já nos conhecemos há tanto tempo. ..
    Acho muito bem que venham de fora os administradores. Não precisam de saber cumprir processos nem contar prazos.
    E os Escrivões não acho, porque, para organizar o serviço numa secção é preciso estar bem dentro do assunto.
    Os do COJ, os da Informática, e os Escrivões deviam, antes de assumir funções, frequentar alguns cursos sobre as competências necessárias às suas funções. Nota-se muito desconhecimento sobre falar e ouvir, falta de educação, respeito, por vezes paciência, há muita ignorância, medo de a mostrar, e ressabiamento, pois também estão a ser vítimas das últimas tutelas que teimam em nos aniquilar.
    O melhor que faziam era nem misturar gerações tão diferentes e começar tudo de novo da maneira que entendem correta.

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    1. Certo, mas isso não interessa aos instalados

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  9. Esperemos por amanhã.

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  10. Como alguém diria, o inferno é aqui

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    1. E é mesmo aqui não tenha duvidas.

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  11. No grupo de WhatsApp, já mete nojo tanto apelo à presença no plenário por parte de alguns "dirigentes".

    Já ninguém os suporta.

    Vão aparecer os habituais ligados ao sindicato. Os demais vão continuar a sua vidinha nas secções onde não falta que fazer.

    O vosso medo é a debandada para o STE que já se verifica em muitos tribunais!!!

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  12. Trabalhem escravos!!!

    Enquanto não me pagarem o roubo de 2001 a 2005 trabalhem vocês a dgaj e mj

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