O “teatro político onde nós fornecemos o palco, o Governo escreve o guião e as nossas famílias pagam o bilhete”
A reunião adiada da passada segunda-feira ficou para hoje, pelo que os dois sindicatos e os elementos do Governo talvez reúnam mesmo, desta vez, no dia de hoje.
No final de
agosto, um Oficial de Justiça partilhou connosco uma reflexão, que também partilhou
com alguns dos seus colegas, contendo uma apreciação que se relaciona com este
momento negocial.
O Oficial de
Justiça, apesar de identificado, preferimos não divulgar o seu nome para que os
leitores se concentrem apenas no conteúdo da reflexão apresentada e, repete-se,
é nossa opção, não foi do próprio.
Como título
apresentou o seguinte:
«26 anos de
carreira e uma pergunta incómoda: até quando vamos pagar o bilhete deste
teatro?»
E escreveu o
seguinte:
«O que se está a
passar neste momento é o reflexo de um problema estrutural: o Governo não
precisa de fazer grande esforço para nos travar porque nós próprios nos
neutralizamos através de uma divisão tática profunda.
O jogo negocial
tornou-se tripartido. Em vez de vermos uma frente unida contra a intransigência
do Ministério da Justiça, assistimos a um triste espetáculo de competição
lateral, onde o SFJ e o SOJ agem numa constante disputa por protagonismo em vez
de resultados.
As trocas de
acusações públicas pós-reunião de 20 de julho são reveladoras da nossa
paralisia. Por um lado, o SFJ acusa a liderança do SOJ de
"subserviência" por anuir à tese do Governo de corrigir apenas o
último escalão. Por outro, o SOJ acusa o SFJ de cumplicidade com o Governo para
"fechar apressadamente" o processo de avaliação (SIADAP adaptado).
Enquanto o SFJ
quer avançar com luta unilateral já em setembro, o SOJ arrasta os tempos e
remete as grandes ações para um congresso em novembro. E qual é o resultado
prático desta assimetria? O Governo assume confortavelmente o papel de
“arquiteto do tabuleiro”, cedendo apenas no acessório e bloqueando o essencial.
Esta divisão
prejudica diretamente as nossas carreiras. Desde 1999 que aguardamos por uma
valorização real. O Decreto-Lei n.º 27/2025 veio criar profundas injustiças
remuneratórias que afetam todos os Oficiais de Justiça, deixando profissionais
com décadas de diferença de antiguidade a auferir praticamente o mesmo. E
perante isto, o Ministério da Justiça tenta desvalorizar a nossa contestação,
alegando que a disputa se prende por um valor "residual" (28 euros).
Pior do que
isso: deixamos que nos distraiam com pistas falsas para desviar a nossa atenção
daquilo que é essencial numa negociação estatutária (ex.: a execução do Acórdão
n.º 676/2025 do Tribunal Constitucional – que é uma obrigação legal imperativa
e não uma cedência do Governo).
Deixamo-nos
consolar com micro vitórias táticas, enquanto o cerne da valorização
remuneratória da carreira continua bloqueado.
A história de
outros setores, como os professores e as forças de segurança em Portugal,
mostra-nos que a união de sindicatos concorrentes nunca vem de cima por boa
vontade das direções; vem sempre de uma forte pressão das bases. Polícias e
professores só conseguiram vergar o Governo quando as suas bases se uniram,
contornando a paralisia das lideranças tradicionais e forçando a criação de
plataformas conjuntas com regras estritas de veto de assinatura unilateral.
Se nós, Oficiais
de Justiça, não tomarmos as rédeas e não forçarmos os nossos sindicatos a um
pacto de unificação negocial, continuaremos a assistir a um teatro político
onde nós fornecemos o palco, o Governo escreve o guião e as nossas famílias
pagam o bilhete.
Está na hora da
base exigir que o SFJ e o SOJ alinhem as suas prioridades numa plataforma
negocial única antes que setembro chegue e seja tarde demais.
Com consideração
e espírito de luta, O Oficial de Justiça, …»
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