Impõem-se defender a Liberdade da Democracia
A atitude repressiva do Governo sobre os manifestantes que reclamam, pacificamente, o direito universal constitucional da habitação para e por todos nós, ganhou novos contornos. Já não está apenas em causa a habitação, a tenda ou a meia-noite e meia, mas a repressão de direitos democráticos, entre eles, a liberdade de expressão, de reunião e, claro, de manifestação.
Se o
apodrecimento do direito à habitação põe em causa a Democracia, a repressão a
que assistimos sobre quem se manifesta põe, definitivamente, em causa, todo o
Estado de Direito com mais esta passagem da sociedade portuguesa para o lado da
intolerância.
Como se lia num
cartaz empunhado na manifestação: “Era para atrasar uma hora, não 52 anos”. E,
de facto, nessa noite de repressão sem razão, os relógios atrasaram uma hora e
era só isso que cumpria atrasar.
Perante este
estado de sítio, um grupo de profissionais da área da justiça, tomou a
iniciativa de elaborar uma carta aberta, que pode ser subscrita, intitulada: “Pela
defesa do direito de manifestação e das liberdades democráticas”.
Nesta carta
aberta constam já alguns subscritores Oficiais de Justiça, mas ainda poucos,
pelo que é fundamental que todos marquem presença na defesa das liberdades
democráticas, antes que não as tenham.
Vai a seguir reproduzida a carta aberta e,
a final, a ligação à mesma, onde também podem ver as centenas de subscritores
que neste momento assumem a defesa das liberdades democráticas, com nome,
profissão e localidade.
Carta aberta:
«Nós, advogados,
juristas, estudantes de direito e profissionais da Justiça abaixo subscritos,
manifestamos a nossa profunda preocupação perante os discursos e práticas que,
nos últimos tempos, têm colocado em causa o pleno exercício dos direitos de
reunião e manifestação e de outras liberdades e direitos fundamentais
consagrados na Constituição da República Portuguesa, nomeadamente o direito à
habitação.
Estes
desenvolvimentos suscitam sérias preocupações quanto ao respeito pelas
garantias constitucionais e ao papel das autoridades públicas na proteção das
liberdades e dos direitos democráticos.
O direito de
manifestação, consagrado no artigo 45.º da Constituição, não constitui uma
concessão do poder político, mas um direito fundamental cujo exercício não
depende de autorização. A par das liberdades de expressão, associação e
organização coletiva, bem como do direito à greve, constitui uma das conquistas
fundamentais do regime democrático inaugurado com o 25 de Abril de 1974.
Estes direitos
não podem ser esvaziados através de interpretações restritivas ou de práticas
que, sob a invocação da manutenção da ordem pública, comprometam o seu
exercício efetivo.
A própria
Constituição estabelece, nos seus artigos 18.º e 272.º, que as restrições aos
direitos fundamentais e a atuação das forças de segurança estão sujeitas a
exigências de legalidade, necessidade e proporcionalidade. A defesa da ordem
pública não pode ser dissociada da obrigação de proteger os direitos e liberdades
dos cidadãos.
Importa recordar
que muitas das conquistas sociais e laborais que hoje integram o nosso
património democrático resultaram da organização, mobilização e luta coletiva.
É através do exercício destas liberdades que milhares de cidadãos reivindicam
melhores salários, condições de trabalho dignas, o direito à habitação, o
acesso à saúde e à educação e, em geral, melhores condições de vida.
Preocupa-nos,
por isso, qualquer tentativa de deslegitimar a contestação social ou de
transformar o exercício de direitos fundamentais num problema de segurança
pública. Uma democracia não se mede apenas pelos direitos que proclama, mas
também pela forma como os respeita e garante, sobretudo quando são exercidos
para contestar decisões dos poderes instituídos.
O que se impõe
não é a limitação do direito à greve ou do direito de manifestação, mas, sim,
uma resposta do poder político aos problemas e anseios que levam muitos
milhares de cidadãos a mobilizar-se em torno da defesa do direito à habitação,
do aumento dos salários e das pensões, da defesa da Escola Pública e do Serviço
Nacional de Saúde.
Enquanto
profissionais do Direito, consideramos nosso dever defender o respeito efetivo
pelas liberdades democráticas e o apuramento de responsabilidades sempre que se
verifiquem violações de direitos fundamentais.
Reafirmamos,
assim, a nossa solidariedade com todos aqueles que se organizam e mobilizam
legitimamente em defesa dos seus direitos, bem como a nossa oposição a
quaisquer iniciativas ou práticas que procurem restringir injustificadamente as
liberdades de reunião e manifestação.
Defender o
direito de manifestação é defender a Constituição, a liberdade e a própria
democracia. (24 de outubro de 2026)»
Pode aceder ao
documento através da seguinte ligação: “Carta Aberta pela defesa do direito de manifestação e das liberdades democráticas”.
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Mansinhos como os sindicatos e associações da justiça
ResponderEliminar👏👏👏
ResponderEliminarUm engano qualquer um pode ter, de vez em quando!
ResponderEliminarPois eu estava a acompanhar em direto pela tv, e como aquilo estava a ser filmado um bocado ao longe, a dada altura até pensei ver o líder do maior partido dos descontentes lá na linha da frente, de braço dado com os manifestantes a fazer o tal cordão humano.
Mas depois fiquei um tanto ou quanto desiludido, quando o plano apertou e vi que afinal era o deputado único do Bloco de Esquerda de joelhos a rezar para não levar no totiço.
Enfim, como disse, um equívoco qualquer naif pode ter em qualquer momento da sua história...
O vandalismo não é, ou não pode ser admitido numa sociedade que se diz democrática. No entanto, a repressão observada nestes últimos dias, por motivos factuais e válidos, cheira a fascismo. É um GOVERNO vergonhoso aquele que impõe a força violenta através da autoridade policial para silenciar a manifestação de descontentamento por parte de quem sofre a incapacidade de aquisição de habitação digna, e do custo de vida que nos sufoca. Creio que, se Francisco Sá Carneiro, voltasse ao país, e visse a actuação daqueles que se dizem sociais democratas, e que actualmente se sentam na cadeira do poder, ficaria de tal maneira chocado, e envergonhado, e lhes diria que FACISMO NUNCA MAIS.
ResponderEliminarSá Carneiro certamente que diria:
EliminarMudem o nome do partido.
Já! Chega.
Vital Moreira, constitucionalista ignaro, não sabe sequer o que é a partilha.
ResponderEliminarReferiu-se, aliás, a uma partilha que até é dupla, como ocupação de espaço público para uso privado.
Ora, a colocação das tendas nas presentes manifestações em praças, não só simboliza a inacessibilidade cada vez mais notória neste país a habitações condignas, como sobretudo apregoa um inequívoco sentimento de partilha, uma vez que cada manifestante que ali tem montado tendas naqueles espaços não as utiliza apenas para si mas, muito pelo contrário, as tem sempre oferecido e disponibilizado a quem quer que queira participar nos movimentos em causa e nelas entrar.
Ou seja, ao invés de estarem a exercer direito privado com a montagem das tendas, estão, outrossim, aqueles manifestantes, a exercer pura ação social - ainda que também simbólica -.
E quem duvidar, vá lá e entre numa delas, e vai ver se alguém irá chamar a polícia.
Que a esmagadora vitoria do camarada Lula seja a inspiração para continuar a lutar pelos valores de abril.
ResponderEliminarCom a esquerda unida, estes fachos populistas cairão que nem tordos.
Encontrei o seguinte texto poético, de um autor que só por um rio não terá sido alentejano, o qual penso que será adequado e proporcional a esta minha intervenção neste espaço e relativamente à violação em apreço neste artigo:
ResponderEliminarCHULA DAS ACAMPADAS
De facto, não há vislumbre, nos espaços em questão, nem se descortina qualquer evidência de especulação.
Tornando por isso algo incompreensíveis algumas abordagens ao assunto de constitucionalistas que parecem até ter visto dependuradas daquelas inócuas limitadas tendas - que tanta alergia têm causado a certos e determinados manjericos da nossa praça - algumas placas com números de telefone de consórcios como, por exemplo, a "REMAX, CADA UM PARA SEU LADO" ou a "JÁ ERA UMA VEZ UMA CASA".